A (in)felicidade dos jornalistas

Joaquim Fidalgo, provedor do REC (provedor@reporteresemconstrucao.pt)

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Baixa o número de candidatos a cursos de Jornalismo, sobe o número dos que resolvem deixar a profissão, acumulam-se motivos de cansaço, insatisfação e infelicidade. E que volta dar a tudo isto?…  

“El grado de Periodismo ha dejado de ser atractivo para los jóvenes que ingresan en la Universidad. No es una percepción. Lo constatan los datos: ha perdido el 18,4% de su alumnado desde 2015 (de 19.000 a 15.500 alumnos)”. A citação foi retirada do El País, edição do passado dia 25 de setembro. Pois é, parece que os cursos de Jornalismo já não têm a força mobilizadora de outros tempos – decerto não tanto (ou não só) por causa dos cursos em si, mas sobretudo por causa da menor vontade de se seguir uma carreira profissional em Jornalismo. Este trabalho sobre a realidade espanhola fala do “desencanto” que muitos jovens sentem quanto a uma profissão que tradicionalmente era sedutora, mobilizadora, envolta até numa aura de romantismo de quem queria genuinamente contribuir para mudar o mundo. Agora há menos gente nos cursos, as notas de acesso são mais baixas e sente-se uma continuada transferência de candidatos da área do Jornalismo para outras áreas ligadas à Comunicação: a Publicidade, o Audiovisual, o Multimédia, as Relações Públicas, a Assessoria. Não conheço estudos detalhados sobre este assunto na realidade portuguesa, mas o conhecimento direto que vou tendo, desde há muitos anos, aponta claramente em sentido semelhante.

E porquê?

Desde logo, pela maior dificuldade em encontrar um emprego em Jornalismo. No caso espanhol, um outro estudo refere que dos 3.870 graduados em Jornalismo há cinco anos, um total de 87 por cento estão a trabalhar. Parece uma boa taxa de empregabilidade. Mas… só 67 por cento deles estão a trabalhar em Jornalismo… Ou seja, cada vez mais é necessário procurar emprego em áreas afins do domínio da Comunicação, ou em setores que nada têm a ver com ela. A urgência de encontrar um trabalho e de ganhar a vida fala mais alto. No que toca às empresas jornalísticas, as notícias que nos vão chegando quase todos os dias falam mais de despedimentos do que de contratações, de contenção de custos, de “downsizing”, de “lay-off”, de ‘emagrecimento’ das redações (o que parece supor, ironicamente, que elas estariam ‘gordas’…). E isso permite também imaginar em que difíceis condições trabalham aqueles que vão ficando: cada vez menos, mas obrigados a fazer o mesmo que se fazia com mais pessoas.

“Situação devastadora”

Daí que me pareça que não é só (ou sobretudo) a falta de empregos que explica a menor capacidade de atração do Jornalismo. Afinal, falta de empregos há em todas as áreas, já nem Medicina é aquele curso que garantia um emprego automático no final… A questão é o que se faz, e como se faz, quando se consegue, apesar de tudo, arranjar um emprego. E aí as coisas não estão nada bem. Divulgados há poucos dias, os resultados de um inquérito que estudou as condições de trabalho dos jornalistas portugueses descrevem uma “situação devastadora na profissão”, para usar as palavras do Sindicato dos Jornalistas. Transcrevo alguns dados elucidativos:

– 48% dos inquiridos (a amostra era constituída por 866 jornalistas) apresenta níveis elevados de esgotamento;

– 50% dos inquiridos trabalham mais de 40 horas por semana e aproximadamente metade trabalha mais de dez horas semanais em períodos noturnos;

– um terço dos respondentes considera que há um desequilíbrio ruinoso entre a vida pessoal e a profissional;

– 36% dão conta de que o salário auferido condiciona a sua prática profissional;

– 54% estão inquietos com a precarização da produção jornalística atual;

– 49% admitem ter vivido situações de censura ou autocensura;

– 42% foram confrontados com problemas éticos por causa do trabalho;

– 48% sentem-se inseguros com a sua situação precária;

– 1.225 euros é a remuneração média líquida dos jornalistas respondentes que estão no ativo.

Com este panorama, percebe-se que não haja grande vontade de dedicar a vida a esta causa, mesmo que ela seja (como tantas vezes é) um sonho antigo. O desencanto que se percebe nas vozes de tantas e tantos que hoje trabalham como jornalistas, a sua frustração por verem como é cada vez mais complicado fazer as coisas bem (com tempo, com ponderação, com verificação…), a tristeza por se chegar ao fim do mês com um ordenado pouco mais que mínimo ao fim de anos e anos de emprego, a desesperança com que se encara o próximo futuro nesta profissão (e o modo como isso se repercute negativamente na vida pessoal e familiar), tudo isso ajuda a explicar a menor capacidade de sedução do Jornalismo.  E se calhar não é tanto o Jornalismo enquanto profissão que desencanta ou afasta, mas antes as condições concretas em que o ofício atualmente se exerce – e que levam à sua lamentável desvalorização no espaço público, como se fosse algo de que, enquanto comunidade de cidadãos responsáveis, pudéssemos prescindir sem grande mossa.

Sobram casos de gente cansada de viver em situação precária ou de estar permanentemente a ter de dar mais e mais, a troco do mesmo ou de menos. Sobram casos de gente que começa a desistir e cumpre na redação apenas os “serviços mínimos”, pois mais não é humanamente possível. Sobram, enfim, os casos de quem troca o emprego em Jornalismo por um outro trabalho porventura menos atraente e menos desejado, mas mais seguro, mais bem pago, com menos horas, menos “stress”, menos frustração, menos angústia. Menos tristeza, que é o que mais se ouve e sente em tantas conversas com jornalistas.

“Dão muito e recebem pouco”

Anuncia-se para breve o lançamento de um livro com este curioso título: “Happiness in Journalism” (ver foto). É uma obra coletiva que, logo no início, diz querer perceber melhor “o que significa felicidade no Jornalismo e como se pode simultaneamente ter sucesso e ser feliz neste ofício”. Sugere que há muito que pode ser feito para “melhorar o bem-estar subjetivo dos jornalistas”, acrescentando que as atenções devem voltar-se menos para as plataformas e para as necessidades de adaptação dos jornalistas e mais “para os seres humanos que estão no centro desta indústria”.

O pressuposto, dizem os editores deste livro, é que os jornalistas frequentemente “dão muito e recebem pouco em troca”, ao mesmo tempo que a confiança pública no seu trabalho vai sofrendo uma enorme erosão. Sublinham que, como sucede em diversas profissões criativas, o Jornalismo é “uma forma de trabalho muito afetiva, que esbate as fronteiras entre vida pessoal e vida profissional”. E quando a infelicidade se torna presente, isso tem impacto não só nas vidas pessoais dos jornalistas, como também na qualidade do trabalho nas redações.

Com as reflexões diversas que aqui propõem, os responsáveis pela obra querem ajudar a perceber “de que modo o Jornalismo pode ser melhor, quer enquanto comunidade de prática, quer enquanto serviço público e enquanto negócio”. Sustentam igualmente que “reconhecer e fomentar a felicidade e o bem-estar dos jornalistas são passos essenciais para re-imaginar o Jornalismo em termos de trabalho e de emprego”, pois “só um trabalhador feliz no pleno e mais rico sentido da palavra é um melhor trabalhador, no que toca a resiliência, eficiência e capacidade pessoal de fazer um bom trabalho”.

Uma leitura que pode merecer a pena – para jornalistas e não só.

Joaquim Fidalgo é docente de Jornalismo e de Ética no Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho. É doutorado em Ciências da Comunicação. Foi jornalista profissional durante 22 anos, tendo trabalhado no Jornal de Notícias, no Expresso e no PÚBLICO, de cuja equipa fundadora fez parte e onde foi também Provedor do Leitor. É comentador regular da RTP. Nasceu em S. Félix da Marinha, em 1954, e reside em Espinho.