Lê-se menos ou lê-se mais?… E mais depressa ou mais devagar?…

Joaquim Fidalgo, provedor do REC (provedor@reporteresemconstrucao.pt)

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Onde se fala da dramática quebra de circulação das edições em papel dos jornais – mas onde também se vislumbram sinais de recuperação nas edições digitais. E onde se conta uma experiência nova de leituras mais vagarosas contrapostas à omnipresença dos cliques…

Figura 1

Figura 2

Nos últimos 20 anos, os principais jornais portugueses de âmbito nacional – o semanário Expresso e os diários Correio da Manhã, Jornal de Notícias, PÚBLICO e Diário de Notícias – perderam três quartos da sua difusão em papel (ver Figura 1). Os cinco somados distribuem, hoje em dia, uma média de 110 mil exemplares em papel: 39 mil para o Expresso, 39 mil para o Correio da Manhã, 19 mil para o Jornal de Notícias, 10 mil para o PÚBLICO, cerca de mil para o Diário de Notícias. Há 10 anos, era o dobro. E há 20 anos era o quádruplo… Sim: em 2003, o Expresso difundia 137 mil exemplares em papel, o Correio da Manhã 111 mil, o Jornal de Notícias 103 mil, o PÚBLICO 54 mil e o Diário de Notícias 47 mil. Somavam, entre si, 450 mil exemplares por edição, de acordo com os dados oficiais da APCT (Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragens e Circulação). Dá para perceber o tamanho da queda.

E dá para perceber, também, o caminho inexorável que parece aproximar os jornais em papel do seu fim. Em papel, sublinho. Porque, se olharmos para o outro suporte por onde os jornais cada vez mais circulam – o suporte digital –, as coisas mudam de feição (ver Figura 2). O PÚBLICO, por exemplo, não só susteve a tendência de queda, em anos recentes, como até aumentou a sua circulação – graças, lá está, às assinaturas digitais. Há 20 anos, este diário tinha uma circulação total de 54 mil exemplares (só papel, o digital ainda não tinha chegado); há 10 anos, baixava os seus exemplares diários para 28 mil (24 mil em papel e 4 mil digitais); agora, em 2023, recuperou para 58 mil exemplares diários, graças ao enorme crescimento das assinaturas digitais (48 mil por dia, contra apenas 10 mil em papel). Ou seja, vende hoje mais do que em 2003…

Tendência semelhante pode ser observada no semanário Expresso, cujo aumento na edição digital também lhe permitiu suster a queda e até inverter essa tendência. Em 2003, difundia 137 mil exemplares por edição; em 2013, desceu para 94 mil (86 mil em papel e 8 mil digitais); agora, em 2023, quase manteve este nível de circulação (91 mil exemplares de média, dos quais 40 mil em papel e 51 mil digitais).

Informação a duas velocidades?

Esta evolução verifica-se em dois títulos de referência, mas o mesmo já não pode dizer-se de jornais com características mais populares – Correio da Manhã, Jornal de Notícias –, onde a quantidade de assinaturas digitais continua a ser muito baixa e as edições em papel prevalecem comparativamente (ainda que em queda, em números absolutos). O Correio da Manhã, com os seus 42 mil exemplares de média diária (dos quais menos de 3 mil correspondem a edição digital) está muito longe dos 111 mil de 2003, e não se vê que a curva inverta. Do mesmo modo, o Jornal de Notícias não vai, hoje, além dos 23 mil exemplares diários (dos quais apenas 4 mil digitais) e são apenas uma boa recordação os 102 mil exemplares que punha nas bancas há 20 anos.

Isto parece sugerir que a única hipótese de os jornais resistirem, ou até aumentarem os seus níveis de circulação, está na área da edição digital. Quem nela investe e tem leitores com um perfil adequado a esse suporte, está menos mal. Quem continua quase só dependente do papel, parece ter um futuro sombrio. Quantos jovens ou pessoas de meia idade vemos hoje a comprar um jornal em papel?… A sensação é de que todos os dias vão desaparecendo os seus leitores tradicionais, mas não se vê qualquer renovação em termos geracionais. A gente nova, a ler um jornal, lê-o no computador, no “smartphone”, no “tablet” – nunca no papel. Tenho para mim que os jornais diários neste suporte, por todas as razões já aqui sugeridas e mais as das alterações climáticas (o papel é um bem cada vez mais escasso) e as da produção industrial (demora horas a produzir e distribuir um jornal em papel), estão condenados a desaparecer em poucos anos. Coisa diferente poderá acontecer com publicações de periodicidade mais alargada (semanários, mensários, revistas), onde as edições em papel, mesmo em tiragens mais pequenas e a preço mais elevado, podem continuar a existir e a evoluir, sem prejuízo de se complementarem também na esfera digital. É a ideia, já há tempos esboçada, de um meio de comunicação social poder ter as suas “breaking news” na esfera digital e, depois, ter como complemento um produto “gourmet”, em papel, mais exclusivo, e pelo qual se pode cobrar um preço mais razoável. Produção e difusão a duas velocidades, com duas lógicas diversas – e duas ‘medidas’ também, uma para maiores audiências, outra para nichos mais exigentes em termos de informação e opinião.

Entre os “most viewed” e os “deeply read”…

Entretanto, a disseminação crescente das edições digitais e do consumo de informação no universo online (seja o dos média tradicionais, seja o das redes sociais) parece ter estimulado níveis de leitura mais rápida e superficial: espreitar este título, depois aquela página, depois as primeiras linhas de um artigo, logo o “lead” de um outro ou uma chamada de atenção via Twitter ou Instagram, e mais outro a seguir, e outro, e outro, numa infinidade de cliques  e de sobrevoos que deixa pouca coisa de substancial. Lê-se muito, mas repartido em muitos bocadinhos, pequenos flashes, frases rápidas, títulos de duas linhas – e as omnipresentes métricas que hoje em dia colhem as atenções de todo o meio de comunicação que se preza lá vão contabilizando cliques. E hierarquizam as peças jornalísticas em função dos cliques (às vezes, até pagando aos jornalistas mais ou menos conforme conseguem mais ou menos cliques…).

É tentando ir um pouco além  desta lógica que o jornal britânico The Guardian (um dos títulos de referência mais prestigiados na cena internacional) decidiu, recentemente, passar a contabilizar dois tipos de métricas. À habitual lista dos artigos mais vistos (“Most viewed” – “What readers are clicking on”) junta, agora, na sua página de abertura da edição digital, também a lista dos artigos mais profundamente lidos (“Deeply read” – “What readers are spending time with”). Os primeiros são os mais populares, os segundos podem não ter tantos cliques mas atraíram a atenção especial de leitores, a ponto de muitos deles lhes concederem um bom par de minutos do seu tempo. Não apenas ver, espreitar, saltitar de um título para outro, mas parar, ler, ler mesmo. E contam os responsáveis do The Guardian que volta e meia ficam surpreendidos com a quantidade de pessoas que escolhem, para ler com calma, alguns dos melhores exemplos de jornalismo de qualidade que vão saindo no jornal, mesmo que aparentemente não sejam (ou até longe disso) os campeões dos cliques.

Também por aqui passa, se calhar, a multiplicidade de tendências que atravessam a paisagem mediática deste nosso tempo de fragmentação, mudança e… incerteza.

Joaquim Fidalgo é docente de Jornalismo e de Ética no Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho. É doutorado em Ciências da Comunicação. Foi jornalista profissional durante 22 anos, tendo trabalhado no Jornal de Notícias, no Expresso e no PÚBLICO, de cuja equipa fundadora fez parte e onde foi também Provedor do Leitor. É comentador regular da RTP. Nasceu em S. Félix da Marinha, em 1954, e reside em Espinho.