Jornalismo “sem direito a perguntas”

Joaquim Fidalgo, provedor do REC (provedor@reporteresemconstrucao.pt)

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Convocar os jornalistas, ler-lhes uma declaração e recusar-lhes perguntas é uma prática estranha, para dizer o mínimo. Isso acontece mais com propósitos de promoção ou propaganda do que de genuína informação. E acabaria se ninguém pactuasse com tal abuso.

O que é que pode levar uma pessoa/uma entidade a convocar jornalistas para uma “Conferência de Imprensa” e, chegado o momento, fazer uma declaração ou ler um papel e dar a sessão por concluída, recusando que lhe façam quaisquer perguntas?

Postas as coisas assim, parece uma coisa sem nexo. Com os meios tecnológicos hoje disponíveis, seria facílimo mandar para os órgãos de comunicação aquilo que se pretende dizer ao público. Mandava-se um texto por “e-mail”, ou até um “clip” de vídeo, ou um ficheiro áudio, usava-se o telemóvel (o “smartphone”, claro) e era tudo mais simples, mais rápido, sem necessidade de preparar ou alugar uma sala, de receber os jornalistas, de organizar uma sessão… E no caso dos jornalistas, era tudo também mais simples: ficavam sentadinhos no seu lugar na redação e lá receberiam por telemóvel ou por computador o texto / a declaração que a tal pessoa ou entidade queria transmitir ao público. Para quê sair da redação, apanhar um transporte público ou pegar num carro, deslocar-se uns quilómetros, gastar umas horas, para chegar ao local e olhar passivamente para aquilo tudo, gravar ou registar o que a pessoa teria para dizer, ouvir e calar, e vir embora logo a seguir?… Desperdício por desperdício, ao menos que se mandasse um estafeta para recolher a tal declaração e não se ocupasse um jornalista com tarefa tão especializada!

Postas as coisas assim, parece meio de loucos: é perder tempo e dinheiro sem propósito, ao pôr de pé uma encenação totalmente artificial para fazer de conta que há ali um contacto com os órgãos de comunicação, que há ali uma notícia, que o jornalista de algum modo a encontrou e que a vai agora publicar…

Parece meio de loucos, mas a verdade é que se faz com inusitada frequência. Sim, sim. Faz-se com frequência, mesmo que toda a gente diga e repita que é coisa sem qualquer sentido.

Porquê?

Os “pés de microfone”

O que as tais pessoas ou entidades pretendem é, afinal, promover-se. É garantir que aquilo que querem dizer sai nos jornais, nas rádios, nas televisões. Se mandassem a informação que pretendem divulgar para os órgãos de comunicação (por correio, por mail, por telemóvel), talvez muitos desses órgãos não fizessem pura e simplesmente qualquer notícia. Sobretudo se aquilo não tivesse grande interesse informativo – que é o que sucede nas mais das vezes… Para combaterem esse risco, os promotores criam, então, uma espécie de evento. Um evento que só existirá se, e na medida em que, seja noticiado nos média (há muito que se estudam os chamados “media events”, que são algo parecido com isto). Convidam os jornalistas, recebem-nos, se calhar até lhes oferecem um refresco enquanto aguardam, e lá dizem então o que têm a dizer. Mas não aceitam que lhes sejam feitas perguntas, porque o que querem dizer é aquilo e só aquilo – e as perguntas, como nós sabemos, às vezes podem ser inconvenientes, ir por outros caminhos, mudar o enfoque desejado para o assunto… E os jornalistas – colocados nesta circunstância meio bizarra, para não dizer humilhante, de serem meros “pés de microfone” – lá recolhem os seus papéis, as suas máquinas, vão-se embora e… se calhar vão (ter de) fazer uma notícia daquilo! Ou seja: o esquema só funciona se os jornalistas / os órgãos de comunicação forem cúmplices nesta encenação e aceitarem reduzir-se a um papel de meras correias de transmissão de umas coisas que umas pessoas querem dizer ao público… Claro que ninguém os obriga a fazer notícia daquilo. Mas, já que lá foram… Ou então o concorrente do lado vai escrever qualquer coisa, e então é melhor eu escrever também… Ou então eu nem fazia notícia daquilo, mas o chefe diz-me que tenho de escrever pelo menos meia dúzia de linhas… Tudo somado, acabam por sair umas notícias aqui e ali. Valeu a pena à entidade promotora correr o risco. O “crime” compensou – porque houve quem, mudo e quedo, o permitisse.

(Parêntesis: quando a pessoa ou entidade que organizou a coisa é muito importante, pode dar-se o caso de aquilo que quer dizer seja logo transmitido em direto por rádios e por televisões. Aí é que lhe sai a lotaria, se me permitem a expressão: ganha, totalmente de graça, uns minutos largos de tempo de antena em relevantes órgãos de comunicação, com a vantagem de não correr qualquer risco de ter de responder a perguntas mais ou menos incómodas de jornalistas. Nestas situações, para que são precisos os jornalistas?… Só atrapalham, não é?…).

É curioso que estes eventos continuem a organizar-se quando, em boa verdade, não seriam necessários no ambiente comunicativo em que hoje todos vivemos. Antigamente, sim, alguém que quisesse transmitir alguma coisa ao público tinha de usar, obrigatoriamente, a intermediação de um jornalista / de um órgão de comunicação. Mais ninguém tinha acesso em grande escala ao espaço público. Mas hoje não é nada assim. Os jornalistas perderam esse monopólio. Hoje, qualquer pessoa, entidade ou instituição, em qualquer parte do mundo, sem custos relevantes ou necessidades de grande formação, consegue difundir o que quiser a quem quiser. Basta ter um computador ou um telemóvel e uma ligação à Internet. Faz-se isso através de um site, faz-se através de uma rede social, do Facebook, do Twitter, do Instagram, do Youtube… Assim, sem mais, num instante, chega-se a todo o mundo. Então para que é preciso um jornalista? Por que não conectar-se diretamente com o público? Para quê convocar uma conferência de Imprensa? Para quê tentar que as coisas que queremos dizer saiam nos meios de comunicação tradicionais, no jornal, na rádio, na televisão? Por uma razão apenas: credibilidade. Ao ser transmitida através de um meio jornalístico, a mensagem ganha uma espécie de carimbo de relevância e de confiabilidade. Não é apenas alguém que está a dizer alguma coisa. É o PÚBLICO, ou a TVI, ou a TSF, ou o Jornal do Fundão, ou a SIC, ou o Diário de Notícias, que está a dizer “aquilo”. Tem outro valor, conquista outra atenção, merece outro respeito.

Constituição, artigo 37

Significa isto que, apesar das tremendas mudanças desta nossa era digital e da enorme revolução tecnológica que alterou todo o processo de comunicação pública, o papel do jornalista não se esfumou. Até por isso, há muito quem tente instrumentalizá-lo. Ele continua a ser importante – e a ser olhado como tal. Dai que custe vê-lo esquecer esse papel, ou até abdicar dele, e transformar-se num simples “pé de microfone”, num mero veículo de transmissão de algo que alguém quis passar para o público, mas com um carimbo de qualidade. Quando o jornalista se presta a isso, voluntária ou involuntariamente, está a prestar um mau serviço ao jornalismo como um todo e a contribuir para que este estado de coisas (de abuso, de claro abuso) se perpetue.

No último Congresso dos Jornalistas Portugueses, em Janeiro de 2017, foi aprovada uma recomendação para que nenhum jornalista aceitasse participar em qualquer “conferência de Imprensa” ou coisa do género se não fosse permitido fazer perguntas. E já tem havido tomadas de posição aqui e ali. Até houve um jornal, o Jornal de Barcelos, que há uns anos publicou uma página em branco no lugar da notícia que devia ter sido feita mas não o foi porque o jornalista não teve direito a fazer perguntas (ver aqui ou aqui). Não obstante, estas têm sido mais exceções do que regra. Nem tudo depende do esforço voluntário e individual de um jornalista – aliás, este ónus não devia ficar a pesar exclusivamente sobre os seus ombros, esquecendo que há chefias, que há direções, que há empresas, que há concorrência, etc., etc. O esforço precisa de continuar a ser feito, mas simultaneamente seria útil uma maior sensibilização da opinião pública para que situações deste tipo fossem consideradas inaceitáveis. Além do mais, elas são uma evidente restrição ao direito de informar.

As eventuais restrições à liberdade de expressão e ao direito de informar – de que são exemplo estas encenações informativo/promocionais sem direito a perguntas – estão, por estes dias, a ser monitorizadas e denunciadas numa plataforma “online” intitulada Artigo 37. O nome remete para o artigo 37 da Constituição da República Portuguesa, que se refere à “liberdade de expressão e informação”. A plataforma foi criada há poucos meses por um conjunto de jornalistas e académicos desta área, contanto com o apoio do Sindicato dos Jornalistas. Ali se expõem casos em que o direito a informar é de algum modo atropelado, seja na recusa de resposta a perguntas, seja na recusa de acesso a documentos públicos, seja nas ameaças a jornalistas, seja nas situações de violência física, seja na proibição de acesso a lugares, etc. Já por lá há uma boa dúzia de casos – e espera-se que cada vez mais gente esteja atenta a eles, denunciando-os, de modo a que este esforço não seja só dos jornalistas, mas de todos os que precisamos do jornalismo, de um jornalismo livre, independente, confiável e… ativo.

Joaquim Fidalgo é docente de Jornalismo e de Ética no Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho. É doutorado em Ciências da Comunicação. Foi jornalista profissional durante 22 anos, tendo trabalhado no Jornal de Notícias, no Expresso e no PÚBLICO, de cuja equipa fundadora fez parte e onde foi também Provedor do Leitor. É comentador regular da RTP. Nasceu em S. Félix da Marinha, em 1954, e reside em Espinho.