Quem é que manda na agenda?

Joaquim Fidalgo, provedor do REC (provedor@reporteresemconstrucao.pt)

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Os interessantíssimos trabalhos publicados este mês pelo REC, todos em volta dos “Extremos”, são também um bom motivo de reflexão sobre um assunto controverso, desde logo (mas não só) entre os jornalistas: como fazer a cobertura informativa da extrema-direita? E a discussão saltita com frequência entre dois polos extremos.

Se se fala muito desses partidos e personalidades extremistas, é publicidade gratuita que se lhes está a fazer – e isso dá-lhes grande visibilidade, ajuda-os a crescer. Se se fala pouco ou nada, é ignorar realidades que existem de facto entre nós e contribuir para um discurso de vitimização – o que também lhes pode angariar simpatias e ajudar a crescer. Como diz o ditado, é-se “preso por ter cão e preso por não ter”?…

Vamos por partes.

A luta pela atenção

Se há coisa por que se luta no espaço mediático, essa coisa é… atenção. E para captar atenção neste mar imenso de informação em que há milhares de notícias possíveis, mas só duas ou três dúzias podem ir diariamente para o ar, vale quase tudo. Ora os líderes da extrema-direita, por natureza populistas, têm-se especializado e refinado nesse domínio.

Eles têm à partida, infelizmente, uma vantagem: numa paisagem mediática em que o “soundbite” e o excesso ditam lei em boa parte dos média, a retórica extremista, xenófoba, dramatizadora, tira enorme partido disso, acenando aos jornalistas com um isco qualquer (não importa se mentiroso, não importa se exagerado) que logo logo será mordido. E se não morde o jornal A, morde a televisão B ou a rádio C. E quem eventualmente não mordeu no início, vê que mordeu o seu concorrente, e… vai morder ele também, para não ficar atrás. Vão (quase) todos atrás de (quase) tudo e dizendo (quase) o mesmo. “Pack journalism”, ou “jornalismo de matilha”, chama-lhe quem estuda estes processos. E não é por mal. E ninguém tem culpa. É porque “o sistema” está assim, funciona assim. Que é que uma voz isolada pode fazer contra isso?…

Partidos e líderes extremistas aproveitam-se destas fragilidades do “sistema”, mas também as exploram até ao tutano. Como não costumam ter muita vergonha na cara, dizem ou inventam qualquer coisa, de preferência excessiva ou tonitruante, só para conseguirem a atenção dos média. Para ganharem umas linhas ou um espaço noticioso. Para terem um título. Para serem falados, ponto. Nestes últimos anos, contam, além do mais, com um aliado de grandíssimo peso: as redes sociais, que supostamente têm pouco ou nada a ver com jornalismo, mas que de facto funcionam como fonte onde o jornalismo se farta de ir beber, em busca de assunto, em busca de polémica, de escândalo. E as redes sociais cumprem bem esse papel de amplificar os ditos e escritos, sobretudo os que são gritados ou pintados com cores berrantes. E multiplicam-nos aos milhares (“tornam-se virais”, não é como se diz?…), por obra e graça ora de pessoas, ora de “trolls” e de máquinas cujo trabalho é, precisamente, amplificar certas mensagens, conseguir partilhas, amealhar “likes”, sair nos primeiros lugares das estatísticas de citações, para depois… influenciar a agenda dos média tradicionais.

Sim, que as mensagens que saltam das redes sociais para os média clássicos ganham frequentemente uma outra credibilidade, pois levam por trás a marca conhecida de um jornal, uma rádio ou uma televisão. E ao saltarem para eles, estão a condicionar-lhes a agenda, a ‘obrigá-los’ a irem atrás do assunto, pois “toda a gente na net está a falar daquilo” e não se pode ignorar aquilo de que “toda a gente” está a falar…

Agenda. O segredo está, de facto, na agenda. Em quem a faz de facto. Em quem manda nela. Em quem a controla. Em quem a percebe e a influencia “como quem não quer a coisa”. Em quem se deixa levar por ela. Em quem julga que está ao leme, quando de facto está a ir na onda. E é isto que os partidos e organizações extremistas, populistas, anti-sistema, perceberam e praticam muito bem: como usar o sistema (que supostamente abominam) a seu favor. Por essas e por outras é que temos o único deputado do único partido de extrema-direita em Portugal com uma exposição mediática de fazer inveja a qualquer político mediano da nossa praça, seja de que partido for.

Trata-se, portanto, de saber o que o jornalista pode/deve fazer num tal contexto. E o essencial, em meu entender, é ele não abdicar da sua responsabilidade de definir e controlar a agenda, naturalmente com atenção ao que se passa à sua volta, mas também com perspicácia para não se deixar manipular e para distinguir, a cada momento, o que “é notícia” do que não passa de propaganda barata e artificial, só para conseguir tempo de antena. E isso, naturalmente, tem que ser feito com critérios – os critérios do interesse público, da relevância social, do serviço a uma cidadania que se deseja bem informada (e não apenas distraída com os “fait-divers” dos criadores de factos políticos e de títulos para os jornais).

Fazer escolhas com critério

Não abdicar das suas responsabilidades profissionais básicas implica que o jornalista tome decisões, selecione, escolha. Mas isso é, afinal, o que ele faz permanentemente. Perante um assunto a tratar, ele (e a equipa em que está inserido, que isto não é apenas trabalho
individual) decide se escreve grande ou pequeno; se junta umas imagens ou se é apenas texto; se coloca no alto da página, com título grande, ou se põe lá no fundo, quase em rodapé; se faz uma chamada à primeira página ou não; etc., etc. E todas estas decisões, por pequenas que pareçam, são opções que de algum modo condicionarão o modo como a notícia vai chegar às pessoas, o modo como ela vai ser lida, a importância que lhe será atribuída. É tudo menos um processo automático e inocente. Mas, antes de tudo isso, a primeiríssima decisão a tomar é se aquilo (um evento, uma declaração, um facto público) dá ou não dá notícia. Se se faz alguma coisa ou se simplesmente se ignora (como acontece todos os dias a tanta informação que nunca chegará aos jornais ou às televisões). E lá vêm, então, os critérios jornalísticos para selecionar, pois não se deve decidir “ao calhas”, ou só porque sim, ou só porque “cheira-me”, ou só porque insistem muito comigo, ou só porque pagaram, ou só porque vai dar “likes”, ou só porque a concorrência também deu…

Critério. Critérios. E que não são os mesmos de cada meio de comunicação social, pois têm a ver com as especificidades de cada projeto editorial, mas que devem, por princípio, ter uma justificação jornalística.

Depois, há que atender também ao “como” se faz a peça noticiosa. Falando de modo bastante esquemático, podemos dizer que o trabalho jornalístico funciona, por assim dizer, a duas velocidades ou dois tempos: o tempo de reportar (dizer o que alguém disse ou fez) e o tempo de interpretar, de explicar, de aprofundar (o que significa aquilo que alguém disse ou fez, qual é o contexto, qual é o sentido que importa retirar, qual a relevância e porquê…). Para mal dos nossos pecados, há muito jornalismo do primeiro ‘tempo’ – jornalista “pé de microfone”, que se limita a repetir quase mecanicamente o que dizem os atores políticos – e pouco jornalismo do segundo ‘tempo’ – o que tenta compreender, que tenta contextualizar, que não se deixa instrumentalizar. E isto é particularmente verdade no que tem a ver com a cobertura jornalística, entre nós, do partido de extrema-direita e do seu líder. Muitas vezes ela fica-se pelas frases do tipo “é uma vergonha!”, que dão títulos fortes e quase nada mais. Não é que isso seja politicamente pernicioso, ou apenas faça o jogo dos extremistas, contribuindo para a sua visibilidade a qualquer preço. Não é só. Isso é mau do ponto de vista jornalístico, é deficiente enquanto trabalho profissional, é um abdicar de aplicar os tais critérios e decidir em conformidade. Jornalismo como mera caixa de ressonância de frases bombásticas é coisa típica das redes sociais; não é verdadeiramente jornalismo.

Joaquim Fidalgo é docente de Jornalismo e de Ética no Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho. É doutorado em Ciências da Comunicação. Foi jornalista profissional durante 22 anos, tendo trabalhado no Jornal de Notícias, no Expresso e no PÚBLICO, de cuja equipa fundadora fez parte e onde foi também Provedor do Leitor. É comentador regular da RTP. Nasceu em S. Félix da Marinha, em 1954, e reside em Espinho.