Guardar notícias na gaveta?

Joaquim Fidalgo, provedor do REC (provedor@reporteresemconstrucao.pt)

0
103

Um(a) jornalista ouve o nome “Bob Woodward” e ele toca logo uma tecla bem sensível: o caso Watergate . Independentemente de alguns exageros que a história não confirma ou de visões com o seu quê de romanceado (o recomendável filme “Os Homens do Presidente” é, para muitos, tudo o que se sabe sobre esta história, ocorrida há já quase 50 anos), o certo é que o caso Watergate marca com letras de nobreza a história do jornalismo contemporâneo, pondo em destaque a importância de uma postura investigativa na reportagem e a exigência de um rigoroso escrutínio público de todos os poderes – desde logo, o poder político.

A queda de um presidente dos EUA por força de uma investigação jornalística, a férrea preservação da identidade de fontes que forneceram informações sob garantia de confidencialidade (quem não ouviu falar de “Garganta Funda”?…), a teimosa perseverança de dois jovens repórteres a quem os mais velhos auguravam pouco sucesso naquele caso, o escrupuloso trabalho de confirmação e reconfirmação de todos os dados recolhidos, a resistência a todo o tipo de ameaças e chantagens, desde a base ao topo do jornal “The Washington Post”… Enfim, não faltam ao caso Watergate ingredientes de valor, daqueles que levaram tanta gente nova a pensar: “É assim que eu quero fazer jornalismo, é assim que o jornalismo deve ser…”.

Não espanta, portanto, que o nome de Bob Woodward seja notícia ainda hoje, muitos anos depois de ele ter trocado (oh!, tentação tão conhecida…) a frágil fugacidade de umas folhas de jornal pela sólida permanência das páginas de um livro! Sim, que ele há muitos anos decidiu dedicar-se à escrita de livros, embora todos eles sobre a atualidade política e todos eles, se assim se pode dizer, com um claríssimo enfoque jornalístico, até pelas aturadas investigações que normalmente estão na sua génese. Por exemplo, escreveu obra relevante sobre todos os presidentes americanos das últimas décadas. E escreveu já sobre Donald Trump. Duas vezes: em 2018 publicou “Fear: Trump in the White House”, agora acaba de publicar “Rage”. E foi deste último livro que surgiu, nas últimas semanas, uma polémica merecedora de alguma reflexão a propósito de boas práticas jornalísticas.

Para preparar o livro que agora publicou, Woodward fez 18 entrevistas a Donald Trump, entre dezembro de 2019 e junho deste ano. E todas foram gravadas, conforme previamente acordado. Uma delas aconteceu em fevereiro, quando o espectro da pandemia começava a ameaçar o mundo, e tem sido repetida vezes sem conta nos média: mostra à evidência (até com recurso ao áudio) como Trump estava plenamente consciente da enorme gravidade do que aí vinha, pois para tal tinha sido informado pelas mais altas instâncias do seu próprio país. No entanto, foi esse mesmo Trump que, poucos dias mais tarde, saiu a público dizendo que aquilo não era mais do que uma simples gripezita, que não havia motivo para alarme, que tudo ia passar rapidamente. E assim continuou a desvalorizar (ou até a ridicularizar) o tema durante semanas ou meses, mesmo quando via multiplicarem-se os infetados e os mortos, sobretudo no seu próprio país…

A polémica que aqui nos interessa, do ponto de vista jornalístico, está em saber se Bob Woodward não devia ter publicado essas informações logo que teve conhecimento delas (em fevereiro de 2020), em vez de optar por as guardar até agora (setembro de 2020), utilizando-as como um óbvio (e fortíssimo) chamariz para o lançamento do seu livro, cujo sucesso está decerto garantido por tão interessantes revelações.

Não falta quem diga que, se tivesse desde logo colocado a nu a contradição entre o que Donald Trump afirmava em privado e aquilo que dizia em público, talvez pudesse ter contribuído para que a pandemia fosse tomada mais a sério pelos americanos e, assim, pudessem ter-se evitado milhares de mortos (eles são já mais de 200 mil nos EUA…). Num caso de evidente interesse público, dizem estas mesmas vozes, não se pode guardar as notícias na gaveta, esperando estrategicamente para as divulgar apenas quando interessam ao jornalista (no caso, tratar-se-ia de reservar material inédito e de choque para o livro em preparação). Ou seja, Woodward teria pensado mais em si próprio do que no público, algo que contraria a vocação mais genuína e mais nobre do jornalismo.

Bob Woodward tem-se defendido destas acusações afirmando, desde logo, que na altura em que estes episódios ocorreram não se sabia o que viria pela frente. E ele próprio não tinha maneira de saber se as coisas iam evoluir com a gravidade a que depois assistimos, pelo que seria prematuro estar a denunciar uma situação meramente hipotética, correndo o risco de ser acusado de alarmista e de perder credibilidade. Além disso, imagina-se que entre entrevistador e entrevistado terão sido combinadas certas regras para todo este projeto: Trump sabia que as suas declarações se destinavam a um livro que sairia em setembro e não a notícias no jornal do dia seguinte e, portanto, podemos imaginar que deixaria pura e simplesmente de falar com Woodward se este começasse a divulgar o que ia sendo dito. E nesse caso, perder-se-ia tudo o que podemos ler agora em “Rage” – material, ao que parece, de inequívoco interesse público para o escrutínio da ação do presidente americano.

Há ainda, no meio disto, quem recorde que Bob Woodward não está propriamente a trabalhar como jornalista, apesar de os livros que escreve terem esse evidente “fundo” e serem elaborados com um método de investigação semelhante. Ou seja, não teria as mesmas obrigações profissionais de um qualquer jornalista, designadamente quanto a “guardar (ou não guardar) notícias na gaveta”. A isto contrapõem outros que a preocupação de denunciar uma situação, com o propósito de tentar salvar milhares de vidas, é muito mais do que um dever profissional: é uma exigência de qualquer cidadão, seja ele jornalista ou não. E seria, afinal, de responsabilidade cidadã que se trataria aqui.

Bob Woodward fez bem ou fez mal?

Nestes assuntos, como na generalidade dos dilemas éticos que se colocam aos jornalistas, não costuma haver uma resposta pronta, uma receita infalível. Cada caso é um caso e os princípios, que são genéricos, têm sempre de ser ponderados em função das circunstâncias particulares em que os factos ocorreram, bem como em função das suas previsíveis consequências. Quando há dois valores relevantes em conflito, temos por vezes de escolher o “mal menor” ou o “bem maior”, e há sempre algo que se perde – para que haja algo que se ganha. Os envolvidos nas situações são sempre quem melhor pode avaliar as coisas, pois conhecem detalhes que quem está de fora nem sequer imagina. Daí que devamos ser prudentes e ponderados a julgar as decisões de alguém em matéria de ética. Devemos, sim, reclamar que nos expliquem por que decidiram num sentido e não noutro (e não apenas “porque sim” ou “porque me apeteceu”). Feito isso, se a decisão foi séria, refletida, pensada, quem somos nós para a condenar – mesmo que, porventura, optássemos nós por um caminho diferente?…

Tenho dificuldade em dar uma opinião definitiva sobre se Bob Woodward deveria ou não ter guardado as revelações de Donald Trump para a altura do lançamento do seu livro. Admito que seria prematuro, como ele próprio disse, pôr cá fora as coisas logo em fevereiro, quando não se fazia grande ideia de como as coisas evoluiriam. Mas depois de fevereiro veio março, e abril, e maio, e junho, e julho, e agosto… Se o jornalista/escritor não fazia ideia da gravidade da situação em fevereiro, decerto já tinha bem consciência dela (como infelizmente todos nós, e como todos os americanos) em abril ou maio. Ora nessa altura talvez tivesse feito alguma diferença saber-se que o presidente americano era grandemente responsável pelas insuficiências do combate à pandemia no seu país, com as consequências trágicas que se iam conhecendo, além de se perceber que mentia continuada e descaradamente. Nessa altura, talvez fosse de ponderar se as eventuais combinações com o entrevistado não deveriam ser ultrapassadas por uma situação de autêntica calamidade pública e pelo desejo de tentar minorar, um nadinha que fosse, o sofrimento de tantas pessoas. Nessa altura, talvez fosse de ponderar se o ethos profissional e a responsabilidade cidadã não deveriam passar à frente do desejado sucesso de um livro projetado para setembro. Talvez.

Joaquim Fidalgo é docente de Jornalismo e de Ética no Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho. É doutorado em Ciências da Comunicação. Foi jornalista profissional durante 22 anos, tendo trabalhado no Jornal de Notícias, no Expresso e no PÚBLICO, de cuja equipa fundadora fez parte e onde foi também Provedor do Leitor. É comentador regular da RTP. Nasceu em S. Félix da Marinha, em 1954, e reside em Espinho.