2020/2021 – O que fica do que passa?

Joaquim Fidalgo, provedor do REC (provedor@reporteresemconstrucao.pt)

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2020 – “O ano em que a ciência subiu ao palco”, titulava o Público na sua primeira página, no passado dia 27/12. Certíssimo. Mas para que a gente visse, ouvisse e lesse o que a ciência estava a fazer, a dizer e a mostrar no palco, foram precisos os jornais, as rádios, as televisões, os “sites”, as redes. E foram precisos os jornalistas. Sem eles, sem isso, ninguém ouviria a ciência. Quase ninguém.

As estatísticas mostram que este ano, e muito em especial nos primeiros meses da crise sanitária que nos arrombou a porta, se consumiu informação como há muito não se via. E até se gastou algum dinheiro nessa atividade, imagine-se… Habituadas que estão a saber do que se passa no mundo (e onde e quando, e porquê, e com que sentido, e com que consequências) sem gastar um cêntimo, pois quase tudo se consegue de graça “na net” (ou então com uns envios-pirata vindos dos amigos em formato pdf…), muitas pessoas lá deram um jeitinho aqui e ali, porventura lembrando-se de que um jornal custa dinheiro a fazer – e quem o faz merece dinheiro ao fim do mês. Dados recentes revelaram que o PÚBLICO viu subirem as assinaturas da sua edição online em mais de 100% no espaço de um ano (outubro de 2019 a outubro de 2020). E o Expresso viu crescerem as suas assinaturas mais de 59% no mesmo período. E lá por fora, o The Guardian deu um salto de 43% nas vendas digitais. E o The New York Times viu as suas receitas aumentarem 28% neste período. E etc… e etc… Quase todos, e não só por cá.

Isto não significa, no entanto, que a imprensa portuguesa tenha passado dos crónicos défices para o equilíbrio das contas, muito menos para lucros sustentados. O que se pode dizer é que, continuando a perder dinheiro, os principais jornais estarão a perder um pouco menos. As assinaturas digitais são muito baratas – e mais baratas ficaram com as campanhas promocionais realizadas nestes meses precisamente para tentar aumentar as vendas, uma vez que se percebeu uma naturalíssima apetência por (e necessidade de) informação sobre a atualidade. Sobre a covid-19, antes de tudo. E sobre o mundo em geral, pois foi ao mundo todo que chegou a covid-19…

Significa isto que mais gente decidiu começar a informar-se mais e melhor – e, sobretudo, que mais gente concordou em gastar algum dinheiro com esse objetivo? Porque o problema principal parece estar aqui mesmo: na disponibilidade para gastar uns tostões em informação, com isso pagando um serviço especializado e de inegável valor (claro que há ofertas melhores e ofertas piores, mas isso cabe-nos a nós escolher…). De outro modo, arriscamo-nos a ver definharem as publicações, esvaziarem-se as redações, fecharem as empresas de média, ficarmos reduzidos a uma espécie de “serviços mínimos” e pobres, muito mais pobres em conhecimento e compreensão sobre o que nos rodeia. Gastar uns euros em informação não é menos nobre do que gastar em ida ao cinema, em livro, em jantar fora, em garrafa de vinho, em visita a museu, sei lá, em todas aquelas coisas pequenos e médias que ajudam a compor a nossa vida para além da pura e simples subsistência.

Em 2020 diminuiu o número de jornalistas em Portugal e anunciam-se mais uns quantos despedimentos. E não poucos estiveram ou estão em lay off. E muitos passaram a ter de trabalhar muito mais por muito menos. A precariedade e a insegurança espalharam-se por muita parte. Há notícias de salários em atraso, mesmo em publicações de aparente solidez. Títulos locais deixaram de se publicar e a desgraça talvez não fique ainda por aqui. E sucede tudo isto, repito, num momento em que, apesar de tudo, pareceu dar-se à informação (e à boa, credível, certificada informação) uma importância que ela vinha perdendo junto do grande público. Percebeu-se como ela pode ser relevante para o nosso viver, para a nossa compreensão da vida, para a proximidade com os outros, para o apaziguar das nossas angústias, para o acalentar de esperanças a partir de notícias e opiniões sérias, valiosas. Claro que o fundo foi a pandemia, com todo o susto que ela nos tem dado. Mas a propósito de pandemia também se falou de muito outro assunto (político, social, económico, cultural…) e se viu que se podia continuar a falar. Ficará alguma coisa de tudo isto por que passámos e continuamos a passar?

Voltando à ciência: nunca tantos jornalistas fizeram tantas notícias, reportagens, entrevistas, análises, perfis, crónicas, tendo a ciência e os cientistas como atores principais. E percebeu-se como esse não foi um desafio nada fácil. Traduzir linguagem especializada para uma conversa que toda a gente entenda, apanhar a complexidade dos assuntos e resistir a simplificações bombásticas, respeitar as dúvidas numa matéria em que tudo parece só querer certezas, tudo isso mostrou como é decisivo um trabalho competente de mediação dos temas de ciência para o grande público. E deixa, certamente, boas lições para o futuro, até porque se percebeu como este é um terreno fertilíssimo para desinformação, manipulação e trogloditismo comunicativo.

Lições podem tirar-se igualmente do modo mais global como deve (ou não deve) comunicar-se a ciência, sobretudo em tempos de sofrimento e de natural ansiedade, como os que temos vivido. Aqui já não se fala dos jornalistas, mas dos titulares de cargos públicos ou dos responsáveis pelas instituições que têm a responsabilidade de gerir estas situações de crise. A diferença entre comunicar bem ou comunicar mal tem efeitos tremendos no modo como as mensagens são recebidas pelo público e, sobretudo, no modo como as pessoas vão reagir a elas. Para informação insuficiente, deficiente ou deliberadamente distorcida já temos o universo muito próprio das redes sociais e dos seus debates por vezes tão exasperantes. Não alimentar esses fluxos e, pelo contrário, comunicar sempre de modo claro, verdadeiro, sereno e respeitador de quem ouve, é meio caminho andado para as coisas correrem bem – ou, pelo menos, menos mal. Não escassearam por aí exemplos para todos os gostos. E era bom que aprendêssemos com eles, pois ainda vamos precisar muito. Uma boa comunicação é, afinal, um fator decisivo para lidar também com os próprios problemas de… saúde!

Um brinde a 2021. Vamos lá a ver…

Joaquim Fidalgo é docente de Jornalismo e de Ética no Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho. É doutorado em Ciências da Comunicação. Foi jornalista profissional durante 22 anos, tendo trabalhado no Jornal de Notícias, no Expresso e no PÚBLICO, de cuja equipa fundadora fez parte e onde foi também Provedor do Leitor. É comentador regular da RTP. Nasceu em S. Félix da Marinha, em 1954, e reside em Espinho.