Jornalista: entre o profissional e o pessoal

Joaquim Fidalgo, provedor do REC (provedor@reporteresemconstrucao.pt)

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A notícia é do dia 29 de outubro deste ano:

A BBC divulgou novas orientações relativamente ao uso das redes sociais, que obrigam o seu pessoal a manter a imparcialidade. Os funcionários são solicitados a “não expressar as suas opiniões pessoais em assuntos de políticas públicas, política ou assuntos controversos”.

Ela chama a atenção para um tema de grande atualidade e de muito melindre, pois divide opiniões e gera controvérsias, por vezes bem aguerridas, entre jornalistas. Na terra da BBC, sim, mas também em muitas outras partes do mundo, Portugal incluído…

De modo simples, a questão que se coloca enuncia-se assim: até que ponto a esfera profissional (pública) e a esfera pessoal (privada) de um(a) jornalista podem ou devem ser consideradas totalmente independentes? Pode ou deve um(a) jornalista expressar-se com toda a liberdade nas suas páginas pessoais do Facebook, do Twitter ou do Instagram, mesmo para abordar temas de que faz o acompanhamento noticioso nos média para que trabalha? Pode ou deve um jornalista de política assumir e promover uma preferência partidária nas redes sociais que frequenta enquanto pessoa – e não enquanto jornalista? Pode ou deve uma jornalista de desporto envolver-se em discussões clubísticas nas redes sociais, tomando as cores de uma ou outra fação?

O problema coloca-se em diferentes níveis. No plano estritamente legal, é evidente que nenhum jornalista pode, pelo facto de o ser, ver-lhe retirados ou diminuídos os direitos básicos que cabem a qualquer cidadão, entre eles o direito à livre expressão ou o direito à livre participação em associações, partidos ou clubes. Em termos práticos, contudo, parece claro que o envolvimento público de um(a) jornalista em determinadas atividades, mesmo feito a título estritamente pessoal, pode suscitar uma espécie de ‘conflito de interesses’ quando se trate de fazer a cobertura informativa dessas mesmas atividades. Não o levar em linha de conta pode acabar por ferir a imagem de imparcialidade que é essencial para o seu trabalho, pois nela assenta a sua credibilidade.

A questão é tão mais complicada quando não é fácil separar total e absolutamente a esfera pessoal de um jornalista da sua esfera profissional. Todos conhecemos jornalistas que associamos imediatamente a um jornal, a uma rádio, a uma televisão. São, em grande medida, personalidades públicas. Nesse sentido, acabam por sofrer de algum modo o ónus de uma menor reserva da sua privacidade (tal como sucede a políticos, a desportistas, a músicos, a escritores…). Além disso, o que dizem ou fazem acaba por ser frequentemente associado ao meio para que trabalham – e já não são eles ou elas que fizeram ou disseram isto ou aquilo, mas “aquele jornalista da RTP” ou “a repórter da TVI” ou “um pivot da SIC” ou “a diretora do Expresso”. Justa ou injustamente, acabam por envolver o nome (e a reputação) dos órgãos de comunicação com os quais são identificados pela opinião pública.

Por outro lado, como bem sabemos, hoje em dia nem sempre é fácil estabelecer o que é que cabe ao domínio privado, pessoal, e o que é mais ou menos público. Mesmo que as redes sociais se organizem em termos de seguidores, de grupos de amigos, de perfis ‘fechados’, de círculos restritos, todos sabemos a facilidade com que muito do que por lá se diz ou mostra acaba por passar ao domínio público. Dizer que escrevemos qualquer coisa apenas na nossa página pessoal, e que apenas a divulgámos junto dos nossos amigos, não é atualmente garantia de coisa nenhuma em termos de privacidade. O edifício tem brechas por todo o lado… Por alguma razão estamos a lidar com “redes sociais” ou até “média sociais”, como preferem os anglófonos. Sociais… São tudo menos uma reunião privada no recato da nossa casa ou uma carta que mandámos pelo correio a uma amiga. Aliás, a explicação da BBC para a criação de um guia orientador radica precisamente nisto, como em tempos escreveu: “As redes sociais esbatem facilmente a linha que separa o pessoal do profissional, e mesmo uma falha pequena pode acabar por minar a credibilidade de um funcionário, dos seus colegas ou da BBC como um todo.”

É por isto mesmo que vários outros órgãos de comunicação se têm preocupado em criar “guias de conduta”, “orientações” ou “recomendações”, com caráter mais ou menos coercivo, destinados a regular o uso que os seus jornalistas fazem das redes sociais, seja em páginas profissionais (que muitos têm), seja em páginas pessoais (que muitos têm também). Entre nós, pode olhar-se o exemplo do jornal Expresso, que em julho de 2019 decidiu adotar, na sequência de um prolongado debate interno, as suas “recomendações” quanto ao uso das redes sociais. Eis alguns dos pontos, a título de exemplo:

“O Expresso recomenda a não separação de perfis pessoais e profissionais, apoiando uma gestão coerente da identidade do jornalista online (…)”

“Quando abordar assuntos profissionais o jornalista deve assumir-se sempre como tal nas redes sociais, mesmo em páginas pessoais (…)”

“O jornalista deve abster-se de mencionar nos seus perfis orientações que possam comprometer a sua imparcialidade (…)”

“Nas suas partilhas, o jornalista deve ponderar se a expressão das opiniões compromete a sua independência.”

“O jornalista deve ser cuidadoso em relação aos likes que coloca em partilhas de terceiros, pois não o sendo, a sua intervenção poderá ser vista como um apoio a determinada causa, personalidade ou instituição colocando em risco a sua imparcialidade.”

As recomendações foram preparadas durante um longo processo interno de debate, tendo sido votadas na redação do jornal e “quase todas aprovadas por maioria qualificada”, de acordo com o que então informou a direção. Ou seja, não houve unanimidade, mas uma clara maioria parece ter considerado que o assunto merecia ser atendido nestes termos.

Debates semelhantes têm ocorrido em diversos órgãos de comunicação no estrangeiro (o The New York Times, com o seu guia de conduta criado em 2017, é outro exemplo conhecido).

Seria desejável que o tema fizesse parte da agenda de todos os nossos meios também. Desde logo, para que os jornalistas pudessem trocar opiniões, elaborar críticas, partilhar dúvidas, sobre um tema que não é fácil, mas que está aí “para lavar e durar” – e que volta e meia tem gerado evidentes incómodos. Trata-se, afinal, de perceber se faz ou não sentido que um(a) jornalista, em atenção à marca de imparcialidade e distanciamento que deve reger o seu trabalho (e o do órgão em que se emprega), livremente aceita moderar o exercício da sua liberdade pessoal no espaço público. Em que moldes? Com que extensão? A que preço? Isso, no limite, só a consciência individual e a exigência ética de cada um(a) é que podem definir. E assumir.

Joaquim Fidalgo é docente de Jornalismo e de Ética no Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho. É doutorado em Ciências da Comunicação. Foi jornalista profissional durante 22 anos, tendo trabalhado no Jornal de Notícias, no Expresso e no PÚBLICO, de cuja equipa fundadora fez parte e onde foi também Provedor do Leitor. É comentador regular da RTP. Nasceu em S. Félix da Marinha, em 1954, e reside em Espinho.