Violência Doméstica. O silêncio podem ser “gritos que querem sair”

Beatriz Pina e Carolina Barata (Universidade da Beira Interior)

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Graça Rojão ajuda vítimas de violência doméstica a conviverem com as memórias através da escrita. Foto: DR

Na associação Coolabora, na Covilhã, Graça Rojão coordena um projeto que encontrou na escrita uma forma de ajudar as mulheres a descobrir e a construir novos sentidos para a vida, o “Rasgar Silêncios”. E escrever também pode ajudar sobreviventes de violência doméstica.

Porque é que decidiram chamar ao projeto “Rasgar Silêncios”?

Porque achamos que os silêncios não são espaços de paz, nem de conforto; são quase gritos que estão dentro das pessoas, que querem sair, são outras vozes que querem sair e têm estado permanentemente abafadas. E o objetivo é rasgar, é permitir que essas vozes saiam, que essas vozes que às vezes estão o dia todo na cabeça, a lembrar acontecimentos terríveis, saiam e possam ser trabalhadas, pensadas e vistas também com um sentido mais crítico, e se possa conviver com essas memórias.

Não é apagá-las, porque as memórias não se apagam assim, mas é conseguir reinterpretá-las, reequacioná-las, de forma a que as mulheres também fiquem mais fortes para que o processo de violência que viveram não volte a acontecer.

De que forma é que as oficinas de escrita autobiográfica podem ajudar as vítimas de violência doméstica?

Eu acho que a escrita é muito transformadora e o facto de termos um momento com outras mulheres, em que discutimos o que é que aconteceu, permite trabalhar várias coisas. Uma delas, que me parece muito importante, é o sentimento de culpa.

Muitas vezes, as vítimas de violência não só foram vítimas como ainda transportam consigo um sentimento de culpa; acham que alguma coisa de errado devem ter feito para que isso lhes tenha acontecido. Superar o sentimento de culpa, perceber que não estão sozinhas e o facto de estarmos em grupo, de alguma forma também facilita isso. Libertar da culpa só de si é muito empoderador.

Considera que através da escrita é mais fácil para as mulheres quebrarem o silêncio?

Não é muito fácil quebrar o silêncio e nós nas oficinas de escrita falamos sobre como nos sentimos a escrever. Mas não é necessário dizer exatamente o que se viveu, ou como se viveu.

Temos uma regra muito bem estabelecida: tudo o que se diz na oficina fica dentro da oficina, ninguém conta para fora. A segunda regra, que também me parece que é muito importante e temos conseguido observar, é que só falamos oralmente quando nos sentimos confortáveis para falar.

Podemos escrever sobre todos os assuntos, mas só falamos sobre como nos sentimos a escrever e como escrever nos transforma. O que não significa que não venham muitas vezes à conversa histórias concretas e histórias vividas. Aquilo que tentamos é que cada pessoa também se proteja e só partilhe oralmente com o grupo quando se sentir confortável para o fazer.

No decurso das oficinas de escrita autobiográfica, que histórias mais a marcaram?

Há histórias muito difíceis, há histórias em que nós acabamos as oficinas e vamos para casa e não conseguimos sequer ficar tranquilas. Não podemos ouvir as histórias e ficar indiferentes.

Não podendo aqui partilhar as histórias, pelo menos nesta fase ainda, lembro-me bem de algumas frases. Por exemplo: uma mulher que está separada, que já está separada há algum tempo, e a quem o ex-companheiro continua a perseguir, recebe uma mensagem a perguntar-lhe “despediste-te dos teus filhos?”. E ela fica aterrorizada a pensar que é nesse dia, porque estava sob ameaça de morte… que é nesse dia que vai morrer. Isso fez-me imensa impressão.

Ou, por exemplo, uma outra: “e então, o caldo verde soube-te bem?”. E a pessoa, que levou a marmita para o trabalho, sabe que ele tinha entrado em casa… ela pensa “ele envenenou-me”, e vai vomitar tudo quanto pode e entra em pânico… e depois percebe que aquilo foi mesmo só para a martirizar.

Todos esses processos de perturbar profundamente o quotidiano das vítimas são extremamente assustadores.

O que distingue este projeto do trabalho que é realizado nos Gabinetes de Apoio à Vítima?

Em termos da intervenção que se faz nos gabinetes faz-se um trabalho fundamental, como é obvio, que é ajudar as pessoas a sair de relações violentas, a resolver os problemas imediatos, seja a nível jurídico, a nível social, a nível também psicológico. Há, no entanto, marcas que ficam para toda a vida, um pouco como a folha de papel que nós amachucamos, e depois podemos endireitar, endireitar, mas há sempre marcas que ficam na folha.

Nós queríamos ter uma intervenção mais profunda, para trabalhar sobre essas marcas que ficam, já depois de ter sido superada a crise e a problemática mais imediata de cessar a violência.

Quem são as mulheres que participam nas oficinas e como é que elas têm conhecimento do projeto?

Até ao momento, têm sido pessoas que nós conhecemos, porque nós também temos dois gabinetes a funcionar, um aqui na Covilhã e um em Belmonte. Até ao momento têm sido pessoas que nós conhecemos e identificamos, mas admitimos a hipótese de vir a fazer um grupo com pessoas, mulheres mais jovens, e aí provavelmente vamos fazer uma divulgação para quem se quiser inscrever. Nesta parte inicial foi mais um contacto pessoal, com pessoas que estão ligadas ao gabinete ou que já cá passaram.

Referiu que pretendem fazer oficinas com públicos mais jovens. Já tem uma data prevista para essas oficinas?

Nós pretendemos no próximo ano experimentar estas oficinas com um grupo de mulheres mais jovens, eventualmente estudantes da universidade. As raparigas mais jovens que são vítimas de violência, têm pedido, ou pedem tendencialmente, poucas vezes apoio, tal como as mulheres muito mais velhas, e, portanto, interessa-nos chegar a esses dois grupos.

Que outras atividades realizam no âmbito do projeto “Rasgar Silêncios”?

Para além das oficinas de escrita autobiográfica e do espetáculo que será construído a partir dos textos das mulheres, há também uma outra atividade: “As cartas que nunca escrevi”, que se dirige àqueles públicos que têm uma intervenção mais direta com as vítimas de violência doméstica. Por exemplo, a GNR e a PSP, que têm uma relação muito próxima e para quem também é importante conhecer a perspetiva delas, e é importante darmos às mulheres a conhecer a perspetiva destes profissionais.

Um outro grupo que para nós é fundamental é o dos serviços de saúde, sejam os médicos ou as médicas de família, seja pessoal de enfermagem, quem está na urgência, porque muitas vezes são quem faz o primeiro acolhimento e para quem também é importante perceber como está e como se sente quem está do lado de lá.

Imaginem uma mulher que vai à urgência com um braço partido e que quem vai com ela é o agressor? É claro que ela nunca pode referir o que é que efetivamente aconteceu. Portanto, também temos o pessoal de saúde como um foco importante do projeto. E o terceiro grupo em que nos vamos focar ao nível da formação sobre as questões ligadas à violência são os profissionais ligados ao sistema judicial, sejam advogados, sejam magistrados do ministério público, sejam também juízas ou juízes.

Porque é que as mulheres continuam a ser as principais vítimas de violência doméstica e de género?

Porque há uma desigualdade estrutural nas relações de poder entre homens e mulheres e isso faz com que as mulheres tenham sempre uma posição de grande subordinação, que é transversal em todas as sociedades.

Nós dizemos que hoje as mulheres têm os mesmos direitos que os homens, e dizemos isso com muita facilidade, mas, se formos ver, por exemplo, as desigualdades no mercado de trabalho, elas são gritantes, há uma diferença muito grande ao nível dos salários.

Se formos ver quais são as profissões em que estão as mulheres e as profissões em que estão os homens e a valorização social de umas e de outras, vemos que há diferenças muito grandes. Pensando num casal heterossexual, com filhos, se pensarmos no quotidiano da mulher e no quotidiano do homem, vemos claramente como são vidas muito diversas.

Porque se as mulheres entraram muito fortemente no mercado de trabalho, no mercado de trabalho pago, no trabalho remunerado, não temos um movimento equivalente dos homens nas tarefas, por exemplo, domésticas e do cuidado. O que temos é que as mulheres acabaram por ter de abdicar do ócio, do lazer, do tempo livre, para poderem assumir os dois trabalhos que acabam por ter. Portanto, a desigualdade é estrutural e está muito enraizada. Se não trabalharmos as questões da desigualdade de género e se não quebrarmos essas barreiras, também não conseguimos resolver o problema da violência.

Acha que hoje, com as marchas, com o facto de se falar mais sobre violência doméstica e de género, as coisas começam a mudar?

Eu acho que as mulheres estão mais conscientes de que não tem que ser assim e acho que há mudanças. Mas o ritmo das mudanças não nos satisfaz, porque são muito lentas e porque pode a qualquer momento haver regressões, como se viu, e está a ver, por exemplo, no Brasil. Portanto, as coisas não estão ganhas, podem voltar para trás a qualquer momento.

A Coolabora tem um Gabinete de Apoio a Vítimas de Violência Doméstica e de Género na Covilhã e em Belmonte. Os serviços do gabinete são gratuitos e confidenciais.

Telefone: 275335427
Telemóvel: 963603300
E-mail: apoiovitimacoolabora@gmail.com

Também a Associação Portuguesa de Apoio à Vitima tem uma rede nacional de gabinetes de apoio. Podem ser contactados através do número gratuito 116 006 ou através do e-mail apav.sede@apav.pt