Adelino Gomes. Um estágio quase perfeito na Rádio Universidade

Texto de Maria Moreira Rato e fotografias de Joana Ochôa (ESCS)

0
814

Viajamos com Adelino Gomes até ao tempo em que conheceu a magia radiofónica, o mesmo em que sentiu pela primeira vez o poder da censura.

“Escola Primária de uma profissão” – era assim que Orlando Dias Agudo descrevia em 1970 a Rádio Universidade, um programa de estudantes na Emissora Nacional. Uma fábrica de talentos onde muitos iniciaram o seu percurso no mundo do jornalismo. Entre eles, Adelino Gomes.

Como chegou à RU?

Através de um concurso, que foi anunciado na emissão diária (transmitida na Emissora 2, atual Antena 2). Ouvi que quem quisesse poderia candidatar-se e fui lá. Deram-me uns papéis com textos em prosa e em verso, muito difíceis de ler, coisas escritas pelo Aquilino Ribeiro – com regionalismos – tudo o que fosse complicado e exigisse que mostrássemos que tínhamos articulação, um bom timbre e a capacidade de ler palavras difíceis.

Penso que havia uma entrevista, mas a terceira prova (aquela que me agradou mais) foi uma soi-disant reportagem. Isto é, davam-nos um tema e diziam: “Imagine que está no local e fale”. Calhou-me a chegada a Lisboa de um presidente francês a bordo do paquete Clemenceau e ele ia desembarcar no Cais das Colunas, no Terreiro do Paço. Davam-nos dois ou três minutos para pensar, falávamos e depois mandavam-nos calar.

O repórter é alguém que é capaz de vencer os tempos mortos, agora, podemos vencê-los com conversa da treta ou dizendo algo de útil. De qualquer forma, a verdade é que temos de comunicar.

Ora bem, havia um tipo mais velho que eu que tinha a capacidade de comunicar com graça e contava-se que lhe tinha calhado o meu tema e que ele tinha dito: “O paquete Clemenceau… Vejo ao longe o paquete Clemenceau… aproxima-se do Cais das Colunas… aproxima-se, volta atrás, dá uma volta” – um navio de grosso calado demora muito tempo a viajar, a velocidade é mais reduzida e ele em dois minutos pôs o paquete a dar várias voltas e ninguém o mandou calar!

Achei piada a isso e depois destes anos todos, tenho ideia de que isto me mostrou essa necessidade de juntar as duas coisas: a descrição ao conteúdo. O jornalista de rádio tem de ter algumas características do fala-barato, agora talvez fosse melhor que falasse um bocadinho menos barato.

O que acontecia depois de um candidato ser selecionado no concurso da RU?

Fazia um estágio e era acompanhado, bem como chamado a fazer aquele ou outro programa, mas também era esperado que propusesse temas. Havia uma discussão continuada entre nós: os programas faziam-se, mas não iam simplesmente para o ar. Tudo era discutido em grupo. Havia uma emissão de uma hora, mas uma constante tentativa de aprendizagem na prática. Até os técnicos eram estudantes. Não havia uma hierarquia, como acaba por haver na profissão: éramos todos iguais, tratávamo-nos por tu e até os chefes eram companheiros. Nesse sentido, era o estágio perfeito.

Fiz um programa de grande experimentação com o José Nuno Martins, porque 1965-1966 foi a altura do fenómeno das rádios piratas e achámos que devíamos trazer para Portugal a maneira anglo-saxónica de apresentar discos – com uma dinâmica absolutamente desconhecida aqui. E criámos um programa com o título “Pop 3-9-7 metros”. E porquê? Porque juntámos a música pop ao facto da nossa rádio ser emitida, em onda média, em 397 metros.

Nesse programa, foi estreado um álbum dos The Rolling Stones, o Aftermath, que tinha uma faixa de onze minutos (algo impensável na rádio portuguesa) e o Zé Nuno apresentava a música de uma forma incrível: foi aí que eu percebi que não tinha apetência para aquilo, mas sim para os noticiários.

No espaço de uma hora, existiam vários programas?

Sim e eram todos realizados pelos estagiários da Rádio Universidade. Tínhamos estudantes a tratar da discoteca, outros da montagem, uns da reportagem, alguns locutores… Costumávamos dizer que lá aprendíamos a ser homens e mulheres da rádio num sentido global, porque podíamos circular por todas as secções e aprender um pouco de tudo.

A verdade é que a maior parte das pessoas seguiu caminhos diferentes, mas saiu dali uma geração que foi acrescentar alguma coisa à rádio – foram realizadores de programas, apresentadores… Saíamos dali e sabíamos fazer anúncios de estação, realizar um programa, fazer uma reportagem e uma notícia.

Na Rádio Universidade, “aprendíamos a ser homens e mulheres da rádio num sentido global”, conta Adelino Gomes aos Repórteres em Construção

Como foi aprender a fazer jornalismo em época de censura?

Foi rápido. Pouco depois de termos fundado o serviço de noticiários na RU, fui fazer a reportagem da abertura solene do ano letivo na Aula Magna, na Cidade Universitária. Encontrei-me com o meu professor de voz, o Rui Pedro, que tinha ido pela Emissora Nacional. Quando o magnífico reitor (que era assim que se dizia), que era o professor Paulo Cunha, começou o discurso, foi interrompido pelos estudantes – estava a haver uma manifestação muito dura, antifascista. E não houve a abertura solene.

Eu e o Rui Pedro vínhamos a descer a Alameda e começámos a discutir aquilo que iríamos fazer. O Rui disse-me: “Vai ser um problema. Faz uma peça, mas reflete sobre isto” e eu respondi: “Vou dizer que o magnífico reitor acabou a sessão e independentemente daquilo que pensemos sobre quem tem razão, isto significa que há uma crise na universidade e que todos devem pensar sobre isto”. Era a coisa mais recuada, nem de esquerda nem de direita, a censura estava na minha cabeça.

Fui para a rádio e, contra o que era habitual, o diretor (que era comissário nacional adjunto da Mocidade Portuguesa) foi ter comigo. Ele já sabia tudo e perguntou-me o que ia dizer e pediu-me que escrevesse outra coisa. Não utilizava estas expressões, mas basicamente disse para eu “dar porrada nos estudantes”. Foi a primeira vez que tive contacto direto com o pensamento censório e que recebi uma ordem de censura, uma ordem brutal. O diretor não me pediu para mudar ou atenuar algo, mas sim para eu dizer o contrário daquilo que tinha visto.

Estive uma hora a debater-me com este problema e quando ele regressou ao estúdio, informei-o de que o meu texto permaneceria igual. Pediu a outra pessoa, que nem sequer tinha assistido ao acontecimento, que escrevesse a notícia. A partir daí, a minha relação de amor com a Rádio Universidade, alterou-se completamente. Arrastei-me por lá, passei a fazer parte de um pequeno grupo proscrito: nunca me expulsaram mas deixei de me orgulhar de lá estar.

Que episódios o marcaram mais?

O meu primeiro contacto com a censura, que já referi e foi determinante, pois talvez tivesse continuado a olhar de uma forma conformista para a situação. E quando fui para o Rádio Clube Português, deparei-me com outra situação, que me humilhou também.

Uma noite, estava de serviço, e chegou uma notícia sobre um ataque ao Vietname do Norte por parte dos Estados Unidos, durante o qual um B-52 tinha sido abatido pelo Vietname do Norte. Tínhamos um telex ligado à censura e só podíamos dar a notícia depois do texto ser libertado. Esperei e quando a notícia voltou a primeira parte estava igual: “Esta noite foi abatido nos céus do Vietname do Norte um B-52 norte-americano”. Mas o segundo parágrafo tinha sido cortado: “Este foi o quinquagésimo sexto B-52 (não sei precisar) abatido pelo Vietname do Norte”.

Foi aí que tive a noção: “Estes tipos servem-se de nós, jornalistas, para fazer uma narrativa do mundo que é tão parcial que é enganadora. E nós somos uma espécie de megafone dessa narrativa”.

Foi a partir daí que passei a querer combater isto à minha maneira, dentro da minha profissão. Procurar levantar o véu ao máximo da parte que estava ocultada pela censura – deixei de ser um intérprete.

Sente que conseguiu levantar suficientemente esse véu?

Não, não foi nada suficiente. Cinco anos depois, num programa da Rádio Renascença, passou-se quase tudo como nestes dois episódios que contei. Seis de setembro de 1972, assalto à aldeia olímpica de Munique. Um comando palestino assalta a aldeia olímpica, faz reféns atletas israelitas e mata alguns. Uma emoção mundial no meio dos Jogos Olímpicos que supostamente são os jogos da paz.

Eu trabalhava no Página 1 e fazia comentário e reportagem. O programa era das 19h30 às 21h00. A Rádio Renascença era na baixa e eu antes ia para A Brasileira e aí fazia as minhas leituras e preparava o meu comentário. Naquele dia, li a Nouvel Observateur e a Triunfo e telefonei à minha mulher, porque me lembrava de ter lido meses antes na Triunfo um texto que me tinha impressionado muito sobre a violência na História do mundo e as suas razões. Pedi-lhe que me fizesse chegar essa edição.

Pelas 16h00, já tinha a minha análise completa, um quadro de interpretação próprio. Que tinha havido um ato de terror mas que não podíamos ignorar o que estava a montante nem a jusante e não nos podíamos esquecer de que havia um problema por resolver: o dos palestinianos, que os levava à violência.

A manchete do Diário de Lisboa referia as declarações do Presidente Nixon e eu tinha ficado indignado, porque ele tinha dito que o mundo civilizado não podia aceitar tal ato. Por isso, no fim do meu texto acrescentei: “E sobretudo estejamos atentos aos hipócritas, que quase à mesma hora, mandavam bombardear diques, aldeias e hospitais”. Apareceu o censor e disse-me: “Vai dar uma porrada nos palestinianos”, mas eu disse-lhe que ainda não tinha terminado de escrever o comentário.

Ele foi para uma reunião e o comentário foi transmitido tal como eu o tinha redigido. A partir daí, não trabalhei na rádio portuguesa até ao 25 de abril.

O que lhe fica para a vida da Rádio Universidade?

O entusiasmo, a aprendizagem, a noção de que a rádio não é apenas um tipo falar ao microfone ou ter boa voz/timbre/dicção. Devemos aspirar à excelência – não nos devemos contentar com aquilo que já sabemos, temos de querer mais, o menor do máximo é sempre a excelência. Algo que nunca se atinge, mas que se deve sempre ambicionar.

Que conselhos daria aos jovens envolvidos nas rádios universitárias?

Que procurem aprender tudo o que é possível enquanto não são profissionais e que essa preocupação seja transplantada para a vida profissional. Que estejam sempre em estágio perante eles mesmos. Sobretudo, nesta área da comunicação social, não podemos parar. É evidente que há sempre livros, filmes, clássicos, etc., mas temos de acompanhar a evolução das coisas, porque o desafio do campo mediático é dominar todas as disciplinas do saber.

Temos de ser como os médicos: especialistas em generalidades, mas também especialistas em especialidades.