Jovens e Habitação. Dificuldades que cabem em muitas divisões

Joana Martins, Professora da Escola Superior de Educação de Viseu e editora do programa "Habitação"

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Casa, residência, domicílio, lar, morada. Nestes sinónimos não cabem as dificuldades que os jovens encontram quando o assunto é habitação. Neste programa do REC fazemos um retrato das várias tipologias do problema.

 

Casa, residência, domicílio, lar, morada. Em qualquer um destes sinónimos não cabem as dificuldades que os jovens encontram hoje em dia quando o assunto é habitação. Os resultados provisórios dos Censos 2021 mostram que nos últimos dez anos aumentou o número de casas arrendadas, subiu o valor das rendas e há menos proprietários. Ainda que não esteja aqui desenhada a segmentação por faixa etária, é fácil concluir que os jovens são uma parte diretamente afetada.

Considerando que a compra de casa quase não chega a ser uma opção, o Porta 65, que o recém-eleito Partido Socialista promete duplicar nos próximos anos, é uma das ferramentas de apoio ao arrendamento jovem. Neste programa do REC conhecemos a história de Joana Santos, que apresentou a sua candidatura a este incentivo para o arrendamento de uma casa, em conjunto com o namorado, e que nos conta que sozinha nunca conseguiria sair de casa dos pais. O estudo da Fundação Gulbenkian diz-nos, aliás, que em 2018 mais de 60% dos jovens adultos (entre os 18 e os 34 anos) ainda viviam em casa dos pais.

Mas as dificuldades de acesso à habitação podem começar ainda mais cedo e têm, também, diversas tipologias. Para muitos jovens que ingressam no ensino superior, a procura de casa num mercado desregulado e sobrelotado também se afigura difícil. E se pensarmos nos estudantes internacionais, as dificuldades chegam mesmo a assumir a cara da discriminação. Jucelia Freire, estudante do Instituto Politécnico de Viseu, conta que ouviu respostas negativas ao tentar arrendar um quarto. A justificação era a cor da pele e a sua nacionalidade, o que mostra que é preciso continuar a contar em voz alta estas histórias.

Mas também vale a pena contar a história de Dieto Pires, de 21 anos, que deu o primeiro passo para a sua nova vida quando rodou a chave da sua nova casa, um dos Apartamentos de Autonomização da Santa Casa da Misericórdia de Coimbra, contruídos a partir dos prémios não reclamados do Euromilhões. O projeto surgiu em 2017 e já chega a mais de uma centena de jovens entre os 16 e os 21 anos.

Quem continua à espera de um projeto são os moradores do Bairro da Horta da Areia, em Faro. Além do problema habitacional das barracas, existe o problema social e a falta de condições de gerações e gerações que se vão renovando entre anexos de madeira e roulottes, como aquela onde vive Marta e a sua família.

O(s) problemas(s) da habitação cabem em muitas divisões diferentes e neste programa também fomos tentar olhar para novas realidades. E porque os millenials são, em simultâneo, a geração dos ecrãs, vamos também ouvir falar de nómadas digitais e das suas opções quando o assunto é habitação. O conceito chama-se co-living, partilha a ideologia do co-working, e Lisboa é uma das capitais europeias onde já é possível encontrar este tipo de projetos.

Casa, residência, domicílio, lar, morada. Em qualquer um destes sinónimos não cabem as dificuldades que os jovens encontram hoje em dia quando o assunto é habitação. Mas coube-nos a nós, desta vez, dar voz a cada uma das pessoas que participam neste programa e que ajudam a desenhar as faces do problema, para que comecemos a construir soluções mais robustas.

Neste programa participaram Márcia Mendes e Sérgio Saavedra, da Universidade Autónoma de Lisboa; Natacha Cantarinhas, da Escola Superior de Comunicação Social; Miguel Ferreira, Débora Lourenço e Filipa Ribeiro, da Escola Superior de Educação de Coimbra; Filipe Pissarreira, Francisca Jardim, Leonor Neves, Raquel Ferreira e Cristina Leite, da Escola Superior de Educação de Viseu; e Ana Margarida Gomes, da Universidade do Algarve. Locução de Luciana Soares. A edição é de Joana Martins, da Escola Superior de Educação de Viseu. A pós-produção é de Miguel Van-der Kellen, da Universidade Autónoma de Lisboa. A coordenação é de Teresa Abecasis, jornalista da CNN.