E o mar tudo levou em Cedovém

Miguel Ribeiro e Ana Silva (Universidade do Porto)

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Portugal enfrenta um problema de erosão costeira que as alterações climáticas deverão agravar nos próximos anos. Em Cedovém, os moradores travam uma batalha pela preservação das suas casas e também da sua existência como comunidade. Para o professor Veloso Gomes, o problema é a “falta de areia” cuja verdadeira causa é a subida do nível das águas do mar.

Foi numa noite terrível, “com muita chuva e muito vento”, recorda Olívia, a matriarca da família Monteiro. O mar tantas vezes bateu na duna que a casa ao lado da sua acabou mesmo por cair. “Inteira”, mostra o filho António com as mãos: tombou como um torrão e foi engolida pelas águas.

Três meses depois, os restos que o mar enjeitou ainda lá estão, junto à base da duna, na praia de Cedovém, a sul de Esposende – pedaços de lajedo e de madeira, lixo do que foi em tempos uma casa segura. Alguns metros acima ainda se mantém de pé a pequena moradia que foi habitada pela família Monteiro. Está vazia depois do agregado familiar, que inclui duas crianças, ter sido realojado pela Câmara Municipal de Esposende num bairro de habitação social, em Fão. Uma faixa azul da polícia circunda agora o local para manter à distância os curiosos. Qualquer dia também a sua antiga casa há-de estar “a boiar no meio do mar”, vaticina António.

A comunidade

Cedovém é uma comunidade costeira do concelho de Esposende. Luís Peixoto, presidente da União de Freguesias de Fão e da Apúlia, avança que, entre habitantes, trabalhadores e veraneantes com segunda habitação, estão ligadas a este território cerca de quatrocentas pessoas.

Avenida Marginal de Cedovém

Os restaurantes que ali funcionam (entre 10 e 12) “são um eixo muito forte da economia do concelho. São milhares de pessoas que frequentam aqueles restaurantes”, garante Luís Peixoto. Há também um número relevante de aprestos que servem de apoio para “as artes das pescas” e diversas casas, das quais apenas um número “residual” é de primeira habitação.

O autarca garante que a progressão da erosão é “cada vez mais galopante” e defende que no imediato a solução deve passar por “deslocar os restaurantes e primeiras habitações para o outro lado da estrada” garantido que existe um projeto da Polis de 11 milhões de euros à espera de aprovação.

Vista aérea parcial da zona de Pedrinhas-Cedovém, em Esposende

O cantinho da resistência

Apesar de tudo, há quem acredite que vale a pena tentar conter o avanço do mar. Adriano Ribeiro é um pescador natural de Cedovém que se empenha na preservação das dunas que protegem as casas, plantando feno nos locais mais sensíveis. Uma planta que prefere aos chorões, porque estes são uma planta invasora.

Adriano criou um projeto chamado ‘Cantinho dos Pescadores’ que visa combater a degradação costeira e servir de ponto de encontro para a comunidade local. No entanto, esta é uma luta de David contra Golias, um jogo de paciência contra um inimigo bem mais poderoso, capaz de desfazer, num dia de maior agitação marítima, o trabalho realizado pelo homem ao longo de semanas. O pescador confessa que por vezes se sente sozinho e que lhe passa pela cabeça baixar os braços. No entanto, logo levanta a cabeça e retoma de novo uma luta que diz ter iniciado há 40 anos.

O trabalho de ‘formiguinha’ de Adriano Ribeiro não consegue, contudo, fazer face às situações mais dramáticas, como as que atingem as casas que ocupam a frente de mar em Cedovém e noutro lugar a norte, chamado as Pedrinhas. No início da primavera, as dunas foram reforçadas com fardos de areia através de uma retroescavadora, uma operação articulada com a junta de freguesia, mas paga pelos moradores, a quem cabe custear encargos de milhares de euros.

O líder do ‘Cantinho dos Pescadores’ garante tratar-se de um remendo, que apenas adia o inevitável recuo da costa por mais um ano, mas não resolve a situação: “É preciso terem a coragem de proteger a costa”, sugerindo o colocação de geo-cilindros: “Metiam por aqui fora até ao fundo e tinham o problema da praia resolvido”.

“Mexeram com a Natureza”

Clemente Palmeira é um dos mais antigos habitantes deste lugar. Os seus olhos já viram ao vivo o que muitos mal conseguem imaginar: terras geladas do Mar do Norte para onde partiu à pesca do bacalhau; matas cerradas na Guiné onde esteve na Guerra Colonial a combater.

Este pescador reformado não tem dúvidas: a construção de esporões feita nas últimas décadas é a principal causa do problema da erosão da orla costeira daquela zona: “Ao pôr isto mexeram com a Natureza. É por isso que escava. O mar faz corropio, vai comendo pela terra dentro”.

Os pescadores queixam-se também de não ser ouvidos. Enquanto Clemente fala, desenha no chão com os dedos a cartografia de uma costa que conhece tão bem como a palma da sua mão e, sobressaindo como ferrões, lá estão eles: os traços que representam os diques de pedra que o homem ali decidiu construir e que as autoridades prometem há anos retirar completamente: “Fizemos protestos porque o esporão tinha mais de oitenta metros. Eles tiraram uma parte e deixaram ficar aquele. Há dez ou 11 anos que há ordem para tirar o resto e ainda não o fizeram. Dizem que não têm dinheiro. Mas tiveram dinheiro para fazer as asneiras. “

Uma questão de tempo

A verdade é que reduzir o problema da erosão costeira em Esposende à presença de esporões e a solução à sua retirada é um erro. Quem o diz é Fernando Veloso Gomes, professor Catedrático da área de Hidráulica, Recursos Hídricos e Ambiente da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP).

Com a retirada dos esporões, é facto que as areias retidas a norte iriam ser transportadas para sul. Contudo, segundo esclarece o especialista, esta solução seria apenas temporária – eventualmente, também esses metros de costa que beneficiariam a zona sul iriam desaparecer. “Podem retirar os esporões à vontade que a situação até pode melhorar durante um ou dois anos, mas infelizmente, é muito mais grave do que isso. O problema passa pela falta de areia: não há areia, os rios não trazem areia para o mar”, afirma.

A verdadeira causa, assegura, é a subida do nível das águas do mar, que acelera de ano para ano e promete que aquela região fique, um dia, submersa – e com ela, a areia em que Clemente Palmeira desenha. “A única questão é quando. Não é daqui a dez anos, nem a 20, nem possivelmente será 100. Agora, se são 500, já não sei”, atira Veloso Gomes.

É o “grande drama científico” – como o apelida o docente da FEUP – do “quando” que se torna na verdadeira preocupação, “porque as coisas estão a mudar de uma tal maneira que o histórico já não se aplica e já não estamos com escalas de milhares ou milhões de anos”.

Com escalas de centenas de anos na mesa, entram também em jogo os fenómenos hídricos, como tempestades intensas e marés meteorológicas (as provocadas pelo estado do tempo). Estas situações que “já não conseguimos prever” estão a ficar cada vez mais frequentes devido às alterações climáticas e, de acordo com o investigador, é essa frequência que vai potenciar cada vez mais a erosão costeira.

A solução passa por tentar controlar o incontrolável, algo que exige uma grande quantidade de recursos financeiros que, para muitos, não valem o gasto. “O grande problema não é a falta de soluções de engenharia. Mas a defesa é cara, e vai ser paga pelos contribuintes para defender umas dez construções de segunda habitação”, considera Veloso Gomes, acrescentando que a forma mais eficiente de desacelerar a erosão da costa seria criar um programa nacional de alimentação de praias.

A erosão da comunidade

Adriano Ribeiro é tão omnipresente neste lugar como o som das ondas do mar. Ir a Cedovém é garantia de o encontrar. Para além do feno, assenta na areia placas de madeira onde pinta versinhos alusivos ao mar e à conservação ambiental: são o seu grito de alerta para a consciencialização da comunidade e dos visitantes para o problema da erosão marítima. “O mar galgou a terra. Aqui-d’el-rei quem me acode”, lê o pescador a partir de uma das plaquinhas, “mas fiquem todos sabendo que o erro fora da mão do homem.”

Quando o mar concede algumas tréguas parece que o mundo pode voltar a ser o que sempre foi para esta comunidade, reunida quando pode sob o guarda sol de palha do ‘Cantinho dos Pescadores’: “Neste canto aqui estamos bem, sabe?”, diz Adriano, que garante que o que o move é ver as gentes da sua terra felizes.

No entanto, todos sabem que a ameaça que pende sobre Cedovém não tardará muito a manifestar-se de novo e será uma questão de tempo até o mar levar não só as casas, mas com elas as memórias que estão guardadas na areia. “Infelizmente, isto vai tudo desaparecer”, vaticina Maria Torcato, uma professora reformada que passa férias em Cedovém há 55 anos. “Não demora muito que o mar esteja na estrada. É a lei da vida”, conclui.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]