O custo de querer ser jogador de futebol

Inês Coelho (Instituto Politécnico de Portalegre)

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Há cada vez mais casos de jogadores de futebol que são enganados pelos seus agentes. São jovens que sonham em jogar nos principais dos clubes da Europa e por isso deixam o Brasil, a América Latina ou África, mas muitos deles encontram uma realidade muito diferente daquela que lhes foi prometida.

É o sonho de um dia se tornar jogador de futebol que leva centenas de jovens todos os anos a atravessar continentes para jogar na Europa. Nem todos têm o fim que desejam e muitos acabam por perceber que foram enganados por empresários, mediadores ou agentes.

Tal como acontece noutros países europeus, Portugal é também um destino para esses
jogadores de futebol que procuram um lugar ao sol no desporto-rei. De acordo com o
Sindicato de Jogadores de Futebol, entre 2015 e 2017 houve quinze casos de tráfico humano com jogadores de futebol. Na maioria das situações que chegam ao conhecimento do sindicato, os jovens jogadores vêm do Brasil, da América Latina ou de África e são aliciados para jogar em clubes de campeonatos inferiores na expetativa de um dia serem transferidos para equipas de maior dimensão e assim os empresários lucrarem com isso.

“Assistimos cada vez mais ao recrutamento por clubes destes escalões, sem estrutura
profissional ou ambição competitiva, tendo em vista testar o jogador e, eventualmente, vir a desenvolver as suas capacidades e lucrar com a sua transferência para um clube de maior dimensão no futuro”, refere João Oliveira, do gabinete jurídico do Sindicato de Jogadores de Futebol. Na origem, ficam “famílias que se endividam para que estes jovens possam vir para a Europa em busca do tal sonho”, lamenta aquele responsável.

Normalmente, os jogadores, todos jovens, vêm acompanhados pelos seus agentes desportivos à espera de chegarem a Portugal com uma estadia, um clube e um bom ordenado.

Lucas Santos é um brasileiro de 20 anos e o sonho é ser jogador profissional de futebol. Desde sempre que o jovem sonha em jogar futebol na Europa. Quando saiu do Brasil, a bagagem estava cheia de esperança, mas a realidade em Portugal acabou por ser muito diferente daquilo que lhe prometeram. Quando chegou em 2018, o objetivo passava por atuar no Académico de Viseu, equipa da Liga 2, mas nada disso se verificou. “O empresário deixou-me no apartamento. Estava tudo correto no princípio, mas ele abandonou-me. Disse que ia ao Brasil e voltava, mas passadas duas semanas a senhoria do apartamento disse que era para sair”, lembra Lucas Santos.

O futebolista, cansado, num domingo depois de um jogo do Eléctrico de Ponte de Sor, conta
que foi muito complicado chegar ao apartamento e no espaço de quinze dias ser posto na rua por falta de um pagamento que lhe prometeram.

Com um ar triste, recorda os tempos em que foi obrigado a encontrar trabalho fora do futebol para conseguir sobreviver em Portugal. Mesmo desmotivado, o jovem deu sempre luta e nunca desistiu de tentar encontrar um caminho para o seu sonho.

Mais tarde prestou provas no Ansião, clube da Associação de Futebol de Leiria onde, apesar do bom desempenho, acabou por não se manter devido aos valores demasiado elevados do seu passe internacional para o clube. Lucas acabou por ingressar no Eléctrico de Ponte de Sor, do distrito de Portalegre, por sugestão de um “olheiro”, que estava a acompanhar um treino no seu antigo clube.

O jovem brasileiro, durante a sua época em Ponte de Sor, trabalhou na colheita da azeitona, pois o dinheiro que recebia no clube não lhe dava para um mês, apesar de o clube lhe ter oferecido um quarto para morar.

Lucas Santos está atualmente no Futebol Clube Serpa, no distrito de Beja. “Tenho melhor
salário e melhores condições, estou muito melhor agora, não desfazendo o Eléctrico Ponte Sor, clube pelo qual tenho muito respeito e sou muito grato por tudo o que fizeram por mim, mas sem dúvida que dei um grande salto”, diz o jogador.

A história de Ibrahim, um avançado da Costa do Marfim que chegou a Portugal em 2012, não é muito diferente. O presidente da escola de futebol da sua terra natal ofereceu-lhe o bilhete para vir até Portugal jogar num clube em Coimbra que tinha parceria com a escola de futebol onde Ibrahim jogava.

O empresário manteve-se com o jogador durante três anos, até o jovem ter sofrido uma lesão. O atleta ainda jogou pela Académica de Coimbra, da Liga 2, antes de prestar provas no Vitória de Guimarães. Ali, conta Ibrahim, “as coisas correram bem”, mas nunca jogou porque o empresário “não deixava”. Ibrahim, comovido, conta que o seu desejo é conseguir ganhar o suficiente para ajudar a sua família, que se encontra com dificuldades, na Costa do Marfim.

Conseguiu chegar até ao Eléctrico de Ponte de Sor, mas o seu objetivo passa por ir mais além: “jogar na Liga 1 para ajudar a minha família”. Ao contrário de Lucas, Ibrahim não trabalhava em Ponte de Sor, pois o dinheiro que recebia era o suficiente para se alimentar durante o mês, ele que também viveu num quarto cedido pelo clube.

Depois de 2012, quando veio para Portugal, Ibrahim só visitou a família na Costa do Marfim
em 2015, após ter recebido pela primeira vez o cartão de residência. Este ano 2018/2019 não foi, porque “quis estar focado na época”.

O jogador não fala português corretamente, tendo algumas dificuldades em se expressar, mas percebe-se que alimenta sonhos e que é para os concretizar que luta dia após dia.
São dois casos dos muitos que têm sido identificados nos últimos anos em Portugal e aos quais o Sindicado dos Jogadores de Futebol diz que: “assegura assistência imediata aos jogadores, procurando garantir as condições de retorno aos respetivos países de origem”.

Questionando os jogadores sobre o facto de terem apoio do Sindicato dos Jogadores de
Futebol, Lucas Santos garante que: “Pedi tantas vezes ajuda ao Sindicato de Jogadores de
Futebol, eles não me ajudaram em nada.” Ibrahim diz que “o sindicato devia ajudar os jogadores a ter uma oportunidade na vida, em vez de nos mandar para a nossa terra. Porque na maioria das vezes, os empresários só pensam no dinheiro e nada mais. Nem se preocupam com tudo o que nos prometeram, é muito mau mesmo. Desumano.”

Ibrahim terminou a época no Elétrico de Ponte de Sor. Encontrou um novo agente e garante que as coisas estão a melhorar: “Só posso dizer que na próxima época irei para um clube que vai para o Campeonato de Portugal, estou motivado e quero continuar o meu trabalho.”