Refugiado, poeta, vendedor da Cais. A longa estrada de Samuel

Isabel Gonçalves (UNL)

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Samuel Diarra, um professor de Geografia, História e Francês do Mali saiu do país há 30 anos depois ter estado preso e ter perdido a família. Atravessou alguns países do norte de África e acabou em Portugal, onde ainda continua ilegal. 

De olhar afável e simpático, Samuel Diarra deixa-se entrevistar, mas não se deixa fotografar. Veste o colete obrigatório de vendedor da revista Cais. Notam-se as rugas da idade, os óculos de lentes fortes e alguma dificuldade em andar.

Na longa viagem que o trouxe a Portugal, atravessou de carro vários países africanos e o deserto do Saara. Uma experiência dura que lhe ficou na memória para sempre. “Bebemos águas sujas, lamacentas”, recorda.

Em Portugal, chegou a trabalhar em várias cidades, por vezes sem contrato. Alguns patrões não lhe pagaram. Hoje, vive da ajuda da Santa Casa da Misericórdia e é há 6 anos um dos vendedores da revista Cais, no Campo Pequeno, em Lisboa. Diz que lhe chega para viver e que o que o impede de trabalhar é uma depressão.

Samuel gosta de poesia, conhece grande parte dos poetas portugueses e ele próprio diz-se poeta, fazendo os seus poemas. O seu sonho é publicar um livro que chegue às mãos de Manuel Alegre, de quem leu toda a poesia, ou de Marcelo Rebelo de Sousa.

Na rua, Samuel interpela as pessoas e quando estas lhe dizem que não, não insiste. Explica que é uma das regras da Cais. Há várias que têm de cumprir, senão são excluídos da venda da revista.

O malinês conta que têm ações em várias áreas, promovidas pela Revista Cais, tais como formações, iniciativas de solidariedade e algumas palestras.

Samuel Diarra não fala mal Português, tem uma forte pronúncia francesa e conta-nos como a poesia o fascina. Leu Florbela Espanca. Sorri e os olhos brilham quando fala do tema.

Conhece a vida política portuguesa e está a par da actualidade. Em casa, gosta de cozinhar. Mistura cozinha portuguesa e petisco do seu país. Vê televisão e gosta principalmente de filmes, sobretudo de casos reais.

Diarra fugiu de um dos países mais pobres do mundo, com uma economia dependente de minas de ouro e da exploração de algodão. Encontra-se situado na África ocidental subsaariana, entre o deserto do Saara e as vegetações férteis do sul.

O Mali tornou-se independente da França a 22 de setembro de 1960 e os malineses
são maioritariamente islâmicos. Fustigado por uma longa seca e marcado por um regime militar instável e por confrontos violentos entre diferentes etnias, o país vê fugir muita gente.

Em janeiro de 2013, o Mali ganhou atenção internacional durante um sequestro numa refinaria de gás na Argélia, que resultou na morte de mais de vinte reféns. O responsável pelo sequestro, o militante islâmico Mokhtar Belmokhtar, afirmou que o objetivo era exigir o fim da intervenção francesa no Mali, iniciada no começo desse ano.

Em Portugal, o SEF contava, em 2017, com 49 malineses a residir no país, 40 homens e 9 mulheres. O relatório do  Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (UNHCR, na sigla inglesa) indica que só em 2018 entraram em Espanha 10 300 pessoas saídas do Mali.