Português, de Timor ao Minho

Henrique Ferreira e Sofia Moreira (Universidade do Minho)

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O Português continua a ser um símbolo de Timor-Leste. Aníbal esteve entre os resistentes, que usaram a língua para falarem sem serem entendidos pelos indonésios. Depois da indenpendência, assumiu a missão de manter viva a língua na região.

Aníbal do Rosário da Costa é timorense. Esteve em Portugal para concluir o Doutoramento em História Contemporânea, na Universidade do Minho, mas um dos seus principais objetivos é melhorar as competências de língua portuguesa. Em Timor, chegou a trabalhar como formador de português para professores do ensino básico e secundário, mas acredita que ainda tem muito a melhorar.


Aníbal do Rosário da Costa foi selecionado entre 70 candidatos para uma bolsa do Instituto Camões

Para a maioria dos estudantes da Comunidade de Países de Língua Portuguesa que vêm estudar para Portugal, a língua é o fator chave no processo de decisão. Há também outros pontos fortes no país, como a qualidade do ensino ou o clima de segurança das cidades portuguesas. No entanto, a primeira resposta da grande maioria é que vêm para Portugal para terem a oportunidade de continuar a aprender em Português.

No caso de Aníbal, continuar a aprender e a fazer investigação em Português, aos 54 anos, também foi a principal motivação para se mudar de malas e bagagens para Braga. Em Timor deixou a mulher e dois dos seus filhos. O terceiro embarcou com o pai nesta aventura e é também aluno da Universidade do Minho, onde está a concluir o mestrado na área das Ciências da Educação. Esteve cinco anos em Portugal e a integração não podia ter sido melhor. No entanto, regressar a Timor é, para Aníbal, um objetivo porque é lá que tem uma missão a cumprir.

Segundo Aníbal, o Ministério da Educação de Timor Leste tem uma política bem definida no que diz respeito à manutenção da língua portuguesa no sistema de ensino. Sendo uma das línguas oficiais do país, o Português continua a ser um dos principais símbolos de Timor, mesmo depois de quase 45 anos desde a desocupação portuguesa.

O objetivo é que estes alunos, que viajam sobretudo para Portugal e para o Brasil, regressem depois a Timor para formar a nova geração de professores. A maioria vem ao abrigo de bolsas, como é o caso de Aníbal, que seguiu para doutoramento apoiado pelo Instituto Camões.


De acordo com Aníbal, alguns professores do quadro não falam bem Português

Poucos meses depois de Portugal ter descolonizado Timor Leste, em 1975, a Indonésia ocupou o território. Aníbal foi guerrilheiro na luta contra a ocupação e afirma que, nesse período, a língua portuguesa teve um importante papel para os timorenses. Os resistentes que lutavam no mato contra as tropas indonésias comunicavam em Português para não serem percebidos. É por isso também que esta é uma língua tão importante para o povo timorense.


A identidade própria do povo timorense, diz Aníbal do Rosário da Costa, é a língua portuguesa

Aníbal já está quase na reta final dos estudos que o trouxeram a Portugal. Em maio, por razões familiares, voltou a Timor. Antes disso, durante a entrevista que deu ao REC, reconheceu que a passagem pela Universidade do Minho foi uma enorme oportunidade para enriquecimento pessoal. De regresso a casa, estará agora a cumprir o desejo que trouxe de poder contribuir para a manutenção do Português nas escolas timorenses.