Estado Novo: as memórias de três mulheres unidas por um regime

Rita Madeira (Universidade Nova de Lisboa)

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O Estado Novo vigorou em Portugal entre 1933 e a Revolução de vinte e cinco de abril de 1974. Por detrás dos números e factos, habitam histórias de pobreza e violência, medo e opressão, mas também de resiliência e resistência.

Aurora Rodrigues, Maria Conceição Mesquita e Maria Manuela Marques têm em comum a condição de género e um regime, mas cada uma revela uma face diferente da ditadura: a resistência antifascista e a perseguição pela PIDE, a opressão da pobreza e a desigualdade social, e a liberdade privilegiada de uma infância nas ex-colónias.

Aurora Rodrigues na Sociedade Harmonia Eborense

“O que pode definir o Estado Novo é a pobreza a todos os níveis”. É assim que Aurora Rodrigues define a ditadura portuguesa, e prossegue: “Há um aspeto essencial que é a opressão das ideias e dos comportamentos e, por outro lado, um modo de vida. Os meios para as pessoas subsistirem e viverem eram muito escassos”.

Estamos na Sociedade Harmonia Eborense, em Évora, local onde há semanas partilhava o seu testemunho como resistente antifascista, algo que se tornou frequente nos últimos anos.

A História passou a ser contada de uma forma muito tímida. Os relatos são sempre muito tímidos no que respeita ao Estado Novo, no que respeita às prisões, ao silenciamento das pessoas. E por outro lado, sempre que se travessa uma crise económica vão-se buscar os mitos do bem-estar e da riqueza do tempo de Salazar e isso é mentira”, conta e reitera: “É um mito que interessa a alguns. Mas as pessoas se vivem mal hoje, antes viviam muito pior. Havia uma miséria coletiva muito grande.”

Com a determinação vincada no rosto e no olhar, pontua o discurso sério e cru com o riso de quem viu sempre na injustiça um motivo para lutar, um impulso para agir. Pousa por vezes o olhar inquieto e absorto sobre a mesa, procurando a memória dessas histórias. Recorda como era comum, nas fotografias de escola, colocarem os alunos com sapatos na fila da frente, para que não se vissem os outros alunos, a maioria, descalços.

Maria Conceição Mesquita, se tivesse ido à escola, teria sido certamente uma dessas crianças cuja pobreza era ativamente escondida. Só viria a aprender a ler aos trinta anos: “Não tive tempo de ir à escola, mas tive tempo de ir à catequese.” Diziam-lhe “Escola? Escola é ir trabalhar, trabalhar é que faz falta!” e assim fez forçosamente, para ajudar a mãe a sustentar os dois irmãos. Começou a trabalhar em 1952, aos dez anos, numa herdade em São Matias, concelho de Évora. Foi com o primeiro salário desse emprego, como empregada doméstica, que pagou o primeiro par de sapatos. Até então, havia andado sempre descalça.

Sete décadas depois, recorda vivamente os primeiros anos de uma infância dura. Está de braços pousados sobre a pequena mesa redonda da sua cozinha, naquela que seria a sua primeira e única casa, num pequeno bairro na periferia do centro histórico de Évora, junto à linha dos caminhos de ferro. É de lá que lembra o dia em que havia enfrentado o inverno rigoroso alentejano, acompanhando a mãe até ao trabalho.

Havia uma grande geada no campo que se ia agarrando passo antepasso à sola dos seus pés. Quando enfim chegou ao trabalho, sentou-se junto a um grupo de trabalhadores que se aqueciam ao redor de uma fogueira. Mas a diferença de temperatura foi tal que, ao derreter o gelo da sola dos pés, desmaiou. Tinha sete anos. Viria a trabalhar vinte e três anos como empregada doméstica. Nos primeiros seis, em São Matias, praticamente sem ver a família. Nos outros tantos, já em Évora, visitando-a nas folgas quinzenais. Em todos eles, invisível.

“Só era melhor porque me davam de comer, porque tinha alimentação”, conta. “As pessoas antes quando iam servir, chamavam-lhes criadas de servir, tratavam-nas como se não existissem. Eram menos que qualquer pessoa e eu sofria com isso, achava-me sempre inferior.” Aos dez anos, no seu primeiro ano de trabalho, a mãe da patroa, que “passava sempre o dedo sobre a bancada para confirmar se estava bem limpa”, quase lhe bateu por encontrar pó. O que via à sua volta era semelhante: “As pessoas quando vinham das ceifas, no final do dia de trabalho, passavam por dentro do pátio onde estavam os ricos para ser mais rápido e eles mandavam fechar os portões porque eles cheiravam mal a suor. Tinham de ir à volta pela estrada mais longe”.

Hoje, com setenta e oito anos e carregando uma resignação terna no olhar, recorda o quanto a sua vida mudou com o vinte e cinco de abril. Alguns meses antes tinha começado a trabalhar numa fábrica, numa cidade que começava lentamente a industrializar-se e foi no caminho até lá que lhe deram a notícia: “Nunca mais me esqueci, era uma terça-feira. Umas pessoas disseram-nos «hoje ninguém trabalha que houve uma revolução em Lisboa!». Na hora de almoço já estava tudo a ouvir a telefonia. Falava-se em acabar tudo em guerra.”

A diferença na qualidade vida foi significativa: “Eu entrei para a fábrica a ganhar dois mil escudos. No mês seguinte ao 25 de abril passei a ganhar oito mil escudos. Foi uma coisa muito boa”, conta.

Passado dois anos, com trinta e seis anos, seria mãe pela primeira vez, algo raro e dissonante com o projeto de vida formatado para as mulheres pelo Estado Novo. “No mesmo ano casei, no mesmo ano fui mãe. Nunca tinha tido uma casa minha e era uma casa de que gostava muito.” Nunca foi politizada. Durante muito tempo e assim como muitas pessoas, não conseguia verbalizar o estado de opressão em que vivia e a palavra «ditadura», como hoje a dizemos, não fazia parte do quotidiano, ainda que se sentissem as injustiças.

A primeira vez que testemunhou a ação da PIDE foi a propósito da prisão de Dinis Miranda, antigo militante do PCP a quem uma avenida eborense presta atualmente homenagem e que esteve preso um total de doze anos. Maria Conceição recorda: “Era de Montoito e ia para a apanha da azeitona no monte onde eu estava. E um dia, eu era gaiata, comecei a ouvir choro, toda a gente a chorar, a mãe dele a chorar. Fui ver o que se passava e era a GNR que o tinha ido buscar para o levar para Caxias. Esteve lá muito tempo. Mais tarde voltou a aparecer na apanha, mas depois lá tornava a ser preso. Andava sempre naquilo.” Na altura, foi a mãe que lhe explicou que “ele não era mau, que era só porque o Governo não gostava dele e por isso queriam castigá-lo.”

Como explica Mariana Carneiro, Socióloga do Trabalho, editora do Esquerda.net e coordenadora do projeto “Mulheres de Abril”, “Quando estás no Alentejo, nunca sais para lado nenhum, quando tudo à tua volta acontece da mesma maneira, tu vês as coisas como uma inevitabilidade. É um ciclo que se vai perpetuando. É a realidade da tua avó, da tua mãe, é quase o estado natural das coisas.” E prossegue: “O que há depois é uma faísca. Mesmo em meios rurais, onde as pessoas tinham menos politização, de repente há um «click» muito visceral, de se chegar a um momento limite em que tem de se reagir.” Por fim, arremata: “A repressão e a violência jogaram muito contra o regime. Os atropelos eram tão grandes, a desigualdade era tão gritante, que depois se foram criando revolucionários, em todas as classes sociais”.

Cartazes da luta estudantil em reação ao assassinato de Ribeiro Santos Fonte: esquerda.net

Para Aurora Rodrigues, essa «faísca» decisiva foi o assassinato de Ribeiro Santos, seu colega na Faculdade de Direito de Lisboa, e que iria agitar e indignar profundamente a juventude portuguesa daquele tempo. “Era franzino, pouco maior do que eu, com uma mancha branca à frente no cabelo. Se estivesse na entrada da faculdade não se via nem ouvia. Então ele saltava para cima de uma cadeira e era de lá que fazia uns discursos que eram de facto que uma força tal que cativavam e mobilizavam toda a gente.”

Mas a doze de outubro de 1972, haveria uma tentativa de silenciar essa força. Foi organizado um meeting contra a Guerra Colonial, na Faculdade de Económicas (atual ISEG), no qual havia um informador da PIDE infiltrado: “Foi um informador que foi apanhado e depois foram cometidos vários erros. A direção da Associação de Estudantes achou por bem chamar a PIDE para confirmar se o individuo que lá estava era ou não um deles. Não viram sequer se eles estavam armados e a Direção entrou com eles dentro de um anfiteatro cheio de estudantes”, conta com indignação na voz.

Prossegue: “Entraram armados e num primeiro momento um deles disparou sobre o Ribeiro Santos mesmo à queima roupa, para o matar a ele. Eu vi-o [a Ribeiro Santos] ficar branco.” Tinha sido para Aurora o limite, a «faísca»: “Eu a partir daí nunca mais parei. Nós deparávamo-nos com circunstâncias muito graves, mas até ali nenhum de nós tinha morrido com um tiro”.

Quando foi viver para Lisboa já tinha uma posição política vincada. Nasceu na Mina de São Domingos e viveu num bairro social em Castro Verde, onde assistia de perto à pobreza sobre a qual ia refletindo através dos livros que lhe chegavam, frequentemente através da Biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian e de um vizinho que estava à espera de partir para a Guerra Colonial. Brincava com crianças de etnia cigana e recebi-as em casa, ao contrário da maior parte das pessoas que a rodeavam, o que a fez começar a questionar aquela discriminação e já no Liceu, em Beja, lia poemas de Manuel Alegre que uma amiga lhe levava.

Assim, quando iniciou os estudos em Direito (curso no qual, à data, as mulheres não eram bem aceites) carregava um espírito critico aguçado e um sentido de ação perante as injustiças sociais que via à sua volta. Foi durante esses anos, já afincadamente contra a Guerra Colonial, que se juntou primeiro ao “Ousar lutar, ousar vencer”, um movimento estudantil do qual Ribeiro Santos e outros colegas seus também faziam parte, e mais tarde se tornou militante do MRPP (Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado).

A partir do dia trágico de 1972, a militância seria a sua prioridade. Pintava murais, distribuía panfletos, participava em manifestações, fazia manifestações-relâmpago. Recorda, alegremente, estas últimas: “Convocávamos pessoa a pessoa, de boca em boca, até no próprio dia. Eu lembro-me por exemplo no Arco do Cego. Hoje as papeleiras são de plástico, mas naquela altura eram de metal. E eles com uma pedra na mão batiam naquilo e diziam «Camaradas, guerra do povo à guerra colonial!». As pessoas que estavam nas paragens dos autocarros ouviam aquilo e depois corríamos por ali fora e dispersávamos. Ninguém era apanhado nessas manifestações”.

Apesar dos dias e noites preenchidos pelas atividades de militância, manteve contacto com as pessoas com quem antes já tinha uma relação e que, apesar de não estarem tão envolvidas, eram uma importante rede de apoio. Era o caso de uma amiga que frequentemente a acolhia no seu quarto, para que a PIDE não lhe tomasse o rasto. E não era caso único: “Nos elétricos, eu entrava numa paragem e distribuía o comunicado aos passageiros todos, sem falar com o maquinista. Quando chegava à porta de saída, o maquinista parava, abria a porta, eu saía e assim a polícia não me apanhava.” E arremata: “Estas pessoas não estavam ali a resistir, mas estavam conscientes.”

Desde os que ajudavam a atravessar a fronteira, aos que distribuíam jornais que lhes eram repentinamente entregues, aos que paravam os autocarros com militantes longe das paragens para que estes não fossem apanhados pela polícia, aos que emprestavam quartos e abriam portas de prédios ao ver um jovem a fugir, havia toda uma rede de resistência mais subtil, mas nem por isso menos importante. Mariana Carneiro reforça: “Há várias histórias de resistência que não passam necessariamente pelos calabouços da PIDE, que não passam necessariamente pela clandestinidade, mas vão abrindo brechas. Só o viver naquela altura era uma forma de resistência”.

Aurora Rodrigues viria, em maio de 1973, a ser presa e torturada pela PIDE, vivência cruamente retratada no seu livro Gente Comum: uma história na PIDE e mais tarde, em maio de 1975, pelo COPCON (Comando Operacional do Continente, criado pelo Movimento das Forças Armadas) e sem qualquer justificação. Encerrou a sua atividade partidária em 1977 e atualmente é magistrada no Ministério Público em Évora.

Longe da pobreza e da repressão: havia salas onde o retrato de Salazar não entrava

Mas era possível ser cidadão português e crescer longe da repressão: era o que acontecia com a população portuguesa que vivia nas então colónias africanas. É o caso de Maria Manuela Marques, atualmente funcionária administrativa no Instituto Português do Desporto e da Juventude, em Évora. Tem vários álbuns de fotografias pousados sobre a mesa da sala de reuniões e mostramo-los generosamente, como quem recorda uma fase feliz de uma vida já distante.

Nasceu em 1965 na Boa Entrada, uma pequena vila em Angola e viveu durante seis anos na então chamada Roça Monte Belo, junto ao Centro de Saúde onde os pais, formados em Enfermagem, trabalhavam. Trabalhavam ambos para a CADA (Companhia Angolana de Agricultura). “O meu pai adorava estar lá, adorou aquilo porque era uma vida muito livre. Enquanto os portugueses cá estavam sujeitos à ditadura que estava institucionalizada, eles lá não sentiam essa pressão”, conta. Brincava livremente, aprendia em turmas mistas e nunca viu o retrato de Salazar nas paredes das salas de aula: “Salazar era-me uma figura completamente estranha. Eu só tenho memórias boas até aos dez anos de idade. E digo sempre que tive a infância mais feliz que uma criança pode ter”.

Um dos episódios que recorda mais vivamente aconteceu no dia em que Maria Manuela, o irmão e alguns amigos, fizeram um concurso nas lianas. Algumas caíam para um precipício e por isso o desafio consistia em dar balanço suficiente para circundar a clareira e regressar a terra firme. “O meu irmão, que era o mais pequeno, tinha uns sete anos, mas era muito reguila e achava que era capaz. Então deu balanço de tal maneira para a frente que não foi capaz de rodar e ficou pendurado no precipício. Começámos aos gritos e foi um homem que vinha do trabalho com uma sesta às costas que conseguiu alcançá-lo”. Era de brincadeiras audazes e inocentes como estas que o seu quotidiano era feito.

Certo dia treparam uma árvore cheia de macacos para apanhar fruta. Foram atirados para o chão e fugiram colina acima. A única coisa de que a proibiam era de brincar com as filhas do diretor da Companhia. Os pais explicavam-lhe que eles eram de «sangue azul». Mas houve um dia em que brincaram juntas: “Houve uma delas que caiu num jardim e fez uma esfoladela no joelho e eu vejo sangue vermelho a correr. Fui a correr para casa e disse «mãe, enganaste-me, a filha da dona Rita tem sangue vermelho como eu”. Esta explicar-lhe-ia que o sangue azul estava relacionado com a classe a que pertenciam.

“As ex-colónias portuguesas eram espaços de grande liberdade social e cultural. Toda a ditadura se sentia muito menos. E o facto de a população branca estar muito unida, fazia com que convivessem todos muito em pé de igualdade, rapazes e raparigas. Tinhas turmas mistas, tinhas um acesso cultural muito mais vasto, tinhas uma liberdade em termos de brincadeira e cumplicidades que te abrem horizontes”, explica Mariana.

Mas este ambiente de liberdade e harmonia viria a transformar-se com o agudizar da Guerra Colonial, que já havia começado em 1961 em Angola. A pressão pelos movimentos de libertação nacional, pelas agendas internacionais e pela opinião pública de um país cansado e economicamente empobrecido pela Guerra, dita a concessão da independência às colónias. Em janeiro de 1975 dá-se o Acordo de Alvor entre o novo Governo Português, o MPLA, a FNLA e a UNITA, que determina a independência de Angola. Em agosto desse mesmo ano, com dez anos, Maria Manuela partiu da Boa Entrada para Luanda.

“Lembro-me do que aconteceu nesse dia. Foi de manhã, levámos apenas uma mala com alguma roupa. O avião fazia pontes aéreas entre Boa Entrada e Luanda para todos os que quisessem ir. E quando chegou a nossa vez, éramos nove porque o avião não levava mais. Em baixo, via-se a coluna militar a cercar a Boa Entrada.” Ficaria um mês em casa do piloto, amigo do seu pai, antes de partir definitivamente para Portugal com a mãe e os dois irmãos. O pai só partiria três anos depois. A instabilidade neste período era muita: “De vez em quando havia tiroteios, os vidros ficavam partidos e os armários furados. Nem sempre havia tempo de fechar os estores, era ir para baixo da cama e esperar que aquilo passasse”. Viria a sofrer stress pós-traumático na adolescência, com pesadelos e sonambulismo.

É então em setembro desse ano que partem para Portugal. Exatamente dois meses depois, a onze de novembro de 1975, seria proclamada a Independência de Angola. Entre 1974 e 1979, de acordo com os Censos de 1981, Portugal receberia 471 427 migrantes das ex-colónias, na sua maioria vindos de Angola, mas também de Moçambique e de outras ex-colónias. Seriam identificados como «retornados», como consequência da criação do Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais (IARN) em 1975, para dar apoio sua à integração.

Depois do “Verão Quente” de 1975, no qual os migrantes são recebidos com ressentimento, por serem vistos como aqueles pelos quais tantos jovens da metrópole tinham perdido a vida na Guerra, Maria Manuela é recebida no rigoroso inverno alentejano. “Enfrentei o frio pela primeira vez. Em outubro a minha mãe teve de dividir os filhos pela família e eu vim para Évora, para casa de uma tia”, conta. Sentia-se deslocada, tinha dificuldades na escola, não aguentava as geadas. Deparou-se com um Portugal instável e ainda conservador. Se antes brincava livremente, agora a avó dizia-lhe que ficasse em casa, que não era coisa de menina brincar na rua. Queria ensiná-la a coser e a cozinhar. Nas ruas, deparava-se com rostos ainda marcados pela ditadura tão recente: “Quando cheguei cá notei que as pessoas eram diferentes. Mais fechadas, retraídas, sorumbáticas e tristes”. Uma herança pesada, fraturante e complexa que deixaria ecos até hoje. Em alguns aspetos ultrapassarmo-la íamos, noutros deixaríamos um caminho por fazer.